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Mestre da música, Dori Caymmi detalha ao MaisPB lançamento do novo disco ‘Utopia’

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publicado em 21/02/2026 ás 11h52

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos – Isabela Espínola e Nana Moraes

Sessenta anos de música e 83 na estrada. Dori Caymmi lançou novo disco “Utopia”, com selo da Biscoito Fino, que se soma um total de mais trinta álbuns, entre os gravados com os irmãos Nana Caymmi e Danilo Caymmi e o pai, Dorival Caymmi e em parcerias diversas. “Utopia”, saiu físico e está em todas plataformas.

Cantor, compositor, arranjador e violonista brasileiro, iniciou carreira nos anos 60, influenciado pela Bossa Nova. Destacou-se na produção musical, trilhas sonoras e premiado com Grammy Latino, unindo MPB e sofisticação.

O disco reúne 10 faixas – nove inéditas e a regravação de “Ninho de vespa”, contando com participações especiais de Mônica Salmaso MPB-4, Boca Livre, Ivan Lins e do mineiro Sérgio Santos – os dois últimos estreando como parceiros de Dori Caymmi.

´Sozinho de Nascença´, ´Navegação´, ´Filete D’Água e ´Filigrana´, todas de Caymmi e Paulo César Pinheiro, completam o repertório do álbum, em gravações solo de Dori. A capa é uma pintura bela que reproduz o quadro do patriarca Dorival Caymmi, no qual retrata Dori ainda criança.

Os músicos elevam o patamar do disco – Jurim Moreira, Itamar Assiere, Paulo Aragão, Iura Ranevsky e Jorge Helder, que responde pela produção, são os instrumentistas do álbum.

Essa é a terceira vez que o artista conversa com o MaisPB – leiam a entrevista e saiba mais sobre o filho do meio de

MaisPB – Abre o disco com ´Búzios Azul´, convidando Boca Livre para cantar junto – essa música lembra as canções de seu pai, Dorival Caymmi…

Dori Caymmi – Essas coisas do mar lembram o papai. O Paulo César Pinheiro, fez esse poema e tenho outros que já gravei em que tem o mar como tema. Por acaso, agora há pouco fizemos uma música nova, que sairá no próximo disco e ele conseguiu fazer a letra, pois ele está sem produzir há muito tempo. A última letra que ele escreveu para mim foi ´Prosa e Papo´, há dois anos.

MaisPB – Quando a gente escuta a canção, ´O Nome da Moça´, que você convidou Mônica Salmaso, a sensação é que é Nana Caymmi quem canta…

Dori Caymmi – É verdade. Nana faria 85 anos em abril. Essa canção é mais de Nana, mesmo. A letra é de Roberto Didio, é muito bonita, ele é casado com minha afilhada Aninha Rabelo, filha de Paulo César Pinheiro e Luciana. Ele é um craque, um letrista formidável, tem uma cabeça muito boa, escreve coisas lindas. De Paulinho eu gravei ´Sozinho de Nascença´, é linda também e é triste.

MaisPB – Falando em Paulo César Pinheiro, qual a música que ele fez há poucos dias, que você motivou-o a botar letra?

Dori Caymmi – Aqui onde moramos em Petrópolis tem muitos pássaros, onde mora com minha mulher Helena. Tem um filhote de Sabiá que fica conversando com a mãe, para saber qual é a mãe dele e ficava assobiando duas três notas, e eu terminei fazendo uma melodia. E mandei para Paulinho e falei que seria ´Sabiá do Rocio´ ( que é o nome do lugar onde moro) e eu fiquei muito feliz, que ele fez a letra.

MaisPB – Então, o sabiá trouxe um milagre?

Dori Caymmi – Sim, um milagre. Depois de tanto tempo se recusando a compor, ele fez uma letra linda. Eu não componho há muito tempo Depois que meus pais morreram, raramente eu fiz uma canção. Ele pediu para ouvir a melodia e uma semana depois, a mulher dele, Luciana, me ligou dizendo que ele tinha escrito a letra. Eu quase caí para trás.

MaisPB – A canção ´Viageiro´, você gravou com Mônica Salmaso, Boca Livre, MPB e outros…

Dori Caymmi – Sim, chamei todos. Essa canção tem uma coisa que a gente traz no sangue, tanto em mim, como em Paulinho. Da Bahia pra cima a gente tem um amor muito grande pelo Brasil. Tem letra do pescador, de viajante. Graças a Deus temos a música nordestina e a música negra no Brasil.

MaisPB – A música mais bonita do disco, ´Pelas Mãos de Algum Poeta´, de Sérgio Santos. Vamos falar sobre essa canção?

Dori Caymmi – É linda mesmo. Sérgio Santos é um mineiro formidável, um excelente compositor e cantor. E tem sangue de pai alagoano. Eu fiz ele cantar. A letra dele é mais forte que a música.

MaisPB – A faixa “Navegação´, cita o poeta Fernando Pessoa e é dedicada a Roberto Leão…

Dori Caymmi – ´Navegação´ é uma canção muito bonita. Eu ainda morava em Los Angeles e ele (Roberto Leão) me ligou, um jovem português, que falou do meu trabalho e queria uma canção minha para ele gravar. Eu disse pra ele, meu pai tem um fado chamado ´Francisca Santos das Flores´ e sugeri que ele gravasse. Ele gravou. Depois ele veio morar em São Paulo, e morreu de Covid 19, com 30 anos de idade. Eu fui prestar uma homenagem numa cidadezinha perto do Porto, (em Portugal) e agora presto essa homenagem a ele, com essa letra de Paulo César Pinheiro.

MaisPB – Quem Dori considera os melhores letristas do Brasil?

Dori Caymmi – Sem dúvida, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, da minha geração. A diferença dele com Chico Buarque, é que Chico é um cronista e Paulo César é um poeta do Brasil,

MaisPB – Como anda Danilo Caymmi, seu irmão?

Dori Caymmi – Ele esteve comigo duas vezes, aqui em casa, almoçamos juntos.

MaisPB – Conta pra gente a história do cara que perguntou a você, da influência dos Beatles…

Dori Caymmi – Eu falei pra ele: aprendi música com meu pai, que fez canções praieiras e samba. Eu conheci pessoalmente Ary Barroso, aprendi música com Tom Jobim, João Gilberto, só de olhar para João Gilberto, Baden Powell agora me diga uma coisa: onde é que entra John Lennon nessa história.

MaisPB – E essa tropa, Paulo Aragão (violão) , Jorge Helder (baixo elétrico) Cristiano Alves (clarinete), Itamar Assiere no piano, Jurim Moreira bateria e triângulo, Dirceu Leite e José Carlos Bigorna nas flautas. 

Dori Caymmi – Rapaz, são craques, a turma toca muito bem.

MaisPB – Você valoriza muito os compositores, né Dori?

Dori Caymmi – Sim. Eles merecem todos os destaques.

MaisPB – A capa do disco é um desenho de seu pai?

Dori Caymmi – A capa é linda, um desenho, que ele me pintou quando eu tinha quatro anos.

MaisPB – Vamos fechar a entrevista com a faixa ´Ninho de Vespa, é um frevo, né?

Dori Caymmi – Exatamente. Essa é antiga, eu resolvi gravar porque é um frevo. Eu tenho amor pela música do Recife. Essa é muito boa demais – “você não morre tão cedo acabei de falar mal em você, você sumiu foi de medo do frevo ferver” canta artista pelo telefone.

MaisPB – Eu vi um vídeo, uma raridade dos anos 70, exibido pela TVE Rio, reune você, Francis Hime, Arnaldo Jabor e Milton Nascimento – juntos vocês cantam ´Nada Será Como Antes´ e você faz um comentário sobre Astor Piazzolla – lembra?

Dori Caymmi – O Piazzolla chegou no Rio de Janeiro para fazer um concerto na Sala Cecília Meireles e eu já o conhecia de Buenos Aires, que eu ia sempre com Vinícius depois com Nana (Caymmi), e fizemos uma temporada no La Fusa (famosa casa de shows em Buenos Aires. Ficamos colegas. Pois bem, estava anunciado um show de Milton (Nascimento) e ele adotou a canção ´Cais´, era uma matiné, Piazzolla ficou de pé e bateu palmas e foi falar com Milton no camarim. Milton é o meu terceiro herói da música do Brasil da minha geração

MaisPB – Você já esteve na Paraíba?

Dori Caymmi – Nunca estive, tenho muita vontade, mas o meu problema hoje é locomoção, ficar velho é bom, mas não é bom