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Mark Fisher é um dos críticos contemporâneos mais vorazes do capitalismo. Ele chama de realismo capitalista uma postura fatalista e desesperançosa com o futuro, isto é, a crença de que não há alternativas plausíveis ao sistema. Trata-se de uma ideologia que colonizou todas as esferas da vida social, cingindo até mesmo os nossos sentimentos e sonhos mais íntimos. O futuro só existiria na forma do fracasso, enquanto signo niilista da cultura pós-moderna.
Karl Marx já havia observado como o capitalismo dessacralizou a cultura, reduzindo toda e qualquer dignidade pessoal às trocas econômicas, à impessoalidade do dinheiro e ao vil e mesquinho cálculo egoísta. Isso também se aplica à arte, que perdeu seu poder revolucionário. Um dos argumentos de Fisher é o declínio da tradição, que vai enlanguescendo à medida que já não encontra reciprocidade com o novo. Ele afirma que “nenhum objeto cultural pode preservar seu poder quando não existem mais olhos novos para vê-lo”.
A tradição esvazia-se se não for, de algum modo, contestada ou modificada pela ação das novas gerações. Chico Science tinha consciência disso quando afirmava que “modernizar o passado é uma evolução musical”, ao operar uma releitura do maracatu. Não basta, portanto, preservar a cultura. Fisher recorda que Guernica, originalmente uma crítica ao terror fascista, acabou por se transformar em um quadro decorativo.
A própria indústria cultural age de modo a retirar o potencial crítico da arte. Os anarcopunks veem no mercado cultural um grande devorador de rebeldias. A música e a estética punk, que pretendiam romper com a música comercial, foram alçadas ao mainstream na década de 1970 e 1980. A voz gutural, o minimalismo harmônico, os compassos rápidos e as roupas puídas se tornaram mercadoria, assimiladas pela indústria cultural e da moda. É possível comprar em lojas de departamento roupas com símbolos punks e anarquistas, jeans rasgados e braceletes de rebite. Todos os objetos culturais, do Eu de Augusto do Anjos até as máscaras cerimoniais de tribos indígenas se transformam em objetos que podem ser vendidos. Estamos presos ao mundo da equivalência total.
A incorporação das estéticas pelo mercado seria apenas um dos aspectos do problema. Fisher notou um processo mais sofisticado, que ele nomeou de “precorporação”, que consiste na pré-formatação dos nossos desejos e subjetividades. No mundo da precorporação, a rebeldia, a negação ao sistema estão previamente roteirizadas. São apenas formais, inofensivas. Um estilo a ser vendido para um nicho específico de consumidores. É o que acontece com a classificação de músicas como “alternativas” ou “independentes”, que tendem repetir os mesmos “gestos revolucionários” sem de fato se colocar fora do mainstream.
Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, é um dos casos mais emblemáticos dessa história. Segundo Fisher, ninguém melhor do que ele travou uma luta, ainda que inglória, contra a precorporação. Cobain é filho de uma geração sem projeto, que vive após o declínio da URSS e o proclamado Fim da História. Uma geração “para a qual cada gesto era antecipado, rastreado, comprado e vendido antes mesmo de acontecer”. Cobain sabia disso. Sabia também que era impotente: que seus gestos de rebeldia não produziam efeito; que “nada funcionava melhor na MTV do que um protesto contra a MTV”; que cada gesto seu era um clichê, previamente roteirizado; e que até mesmo saber disso já era, em si, um clichê.
Nesse universo, a inovação estética, o novo, o não-comercial deixaram de ser possíveis. Como disse o sociólogo Fredric Jameson: “tudo o que resta é imitar estilos mortos, falar através de máscaras e com as vozes dos estilos no museu imaginário”. Dessa maneira, o sucesso se transforma no fracasso e o fracasso num imperativo categórico. Tudo é canibalizado pelo sistema. Até nossos gestos mais profundos, nossas angústias, medos, devaneios, solidão e sonhos. A angústia existencial do Nirvana e de Cobain, dizia Fisher, “já pertence a um outro tempo; o que veio depois disso foi uma cópia do rock, que reproduz as formas do passado sem angústia nenhuma.”
A morte de Cobain preconizaria a morte da utopia do rock. A sua incorporação plena. Fisher é bastante enfático ao afirmar: “quando ele morreu, o rock já tinha sido eclipsado pelo hip hop, cujo sucesso global pressupunha o tipo perfeito de precorporação capitalista… Para boa parte do hip hop, qualquer esperança ingênua de que a cultura jovem ainda seria capaz de mudar alguma coisa cedeu lugar à adesão incondicional a uma versão brutalmente redutora da ‘realidade’.”
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 15/01/2026





