João Pessoa, 15 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC Dólar - Euro

ÚltimaHora
Francisco Leite Duarte é advogado tributarista, auditor-fiscal da Receita Federal (aposentado), professor de Direito Tributário e Administrativo na Universidade Estadual da Paraíba, doutor em direitos humanos e desenvolvimento. Na Literatura, publicou os romances “A vovó é louca” e “O Pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de agosto”, um livro de memórias (“Os longos olhos da espera”), e dois livros de crônicas.

De cabrito, a bode pai de chiqueiro

Comentários: 0
publicado em 15/01/2026 ás 20h43

De cabrito, a bode pai de chiqueiro

O sábado imperava silencioso. Na calçada da bodega de seu Né, gritos estridentes expunham os gladiadores em torno de uma bola de meia.

O terreiro espremido pelas árvores da caatinga era a arena. Terra batida, seca, pedras pontiagudas e traiçoeiras. As traves eram quatro pedras, aos pares, de cada lado.

Não havia juiz. A força, o atributo natural dos capitães dos times. Nus da cintura para cima, três meninos de cada lado, afora o goleiro, o mais franzino. Eu deveria ser dessa posição, mas meus dribles desconcertantes e precisão em acertar o cantinho da trave não me queriam lá.

Ao derredor, os torcedores incentivavam as querelas. Queriam sangue. E havia sangue! Jonas de Chaga perdera a unha do dedão do pé; Joãozinho de Zé Leite com as pernas cortadas pelos mata-pastos; um dos goleiros com um catombo na cabeça. Minhas costas cortadas por dois vínculos produzidos pelas unhas de Mané de Passinha.

Um a um. As equipes defendiam suas afirmações. A bola caiu em uma barroca, se deitou na palma do pé direito. Zagueiro caído, esmurrando o chão. Um bem-te-vi, leso do juízo, que zanzava por ali, gritou: bem-te-vi! Mirei as pernas do goleiro: Goooooooooooooooooooool!

Os adversários e seus olhos capiongos, de cabeça baixa. Corri ao redor do campo, soquei o ar, como Pelé. A suprema glória, mas um tijolo solto da calçada se espremeu entre o solo e meu pé, deslizou-se, fui para frente e caí por cima do braço.  Alguém me levou para casa da irmã Dedé. Papai providenciou talas de madeira, claras de ovos, mastruz pilado e cordões para a amarra.

Quarenta dias de repouso. Ao cabo, papai tirou os nós, desamarrou as talas, mostrou o resultado: o braço estava inteiro, mas eu não podia virá-lo. Papai desceu a ribanceira do riacho Pé de Serra, localizou um jenipapeiro, tirou a rapa azul e salpicou no meu braço, por meses. Fez mais: foi ter com Zé de Veizé, comprou um quilo de sebo de carneiro capado que seria usado na besuntação da quebradura, pela manhã e à noite, ao dormir.

Na época, eu, um pré-adolescente bem besta, tinha minhas vaidades, mas, por mais sessenta dias só fedi a bode pai de chiqueiro. Que santo remédio!

Do livro “Os longos olhos da espera”

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

[ufc-fb-comments]