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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Don’t let me down

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publicado em 14/07/2020 às 07h00
atualizado em 13/07/2020 às 16h40
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Fui despertado pelo som do triângulo. Era o homem velho, tocando anunciando a volta do cavaco chinês. Tão bonito o som. Acho que fui avisado quando conversava com uma amiga e eLa, tocou nesse assunto. Tão boa essa amiga. E culta, viu? E não faz cobrança. Às vezes escuto o vento roçando nos galhos das árvores do jardim. Sensacional

Eu gosto muito do filme “Som ao Redor” (2011), drama e suspense, escrito e dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, que tem no elenco, o escritor, ator e artista plástico “paraibano” W.J. Solha. Realmente tem muito som ao redor.

Eu não gosto de som de graça. Como assim? Gente que faz do prato um pandeiro e fica na fila do self-service insinuando tocar alguma coisa. É gratuito, gente que batuca na mesa enquanto conversa. É gratuito.

Ontem, enquanto lia na rede, na varanda de nossa casa, contava as peças de roupa no varal, camisetas e vestidos, que estamos usando desde o inicio da quarentena. Tipo usou, lavou, secou e usou de novo. Nesse instante lembrei de manhãs de carnaval e pensei que era feriado nacional. Ando meio desligado, mas atento.

O som da chuva a cântaros me encanta, me lava e me leva de volta as noites sertanejas, como o samba que me transporta para outros botequins. Lembra daquela história quando alguém dizia: “Essa música é cara do Tênis Clube de Cajazeiras”. Ou: “Essa música é a cara de Corrinha”, esquece. Música não tem cara. Don’t let me down.

A libertação tingida de sol, luz e ar puro é tão boa. Até já me acostumei caminhar cedo no jardim, pra lá pra cá, com meu tênis e as mesmas pisadas ligeiras do mar. Escrevo agora ao som de Cartola, “Alvorada, lá no morro que beleza…” É tão bonito Cartola cantando porque tudo na vida acontece. Aconteceu.

Ultimamente salto de livro em livro sem prosseguir na leitura, depois volto. O som da passada de páginas e a saudade de Diva Medeiros enche minha boca do gosto de café, jamais de algum modo, como quem costuma deixar comida no prato, porque não estarmos dispostos a esse insulto aos subnutridos do mundo. Mas cá pra nós: acho feio que toma sopa fazendo barulho na boca.

Às vezes a carne é fraca, mas a carne de sol é difícil de cortar com garfo e faca. Já o Inhame… Eu adorava comer o escalopinho de filé mignon com o refinado finado Ascendino Leite. Eu era tão jovem.

Mudei de assunto? Muitos astrais para nunca esquecermos de baixar o som. Pra quê ouvir tão alto? Tá doido, é? Não é difusora, né Heron Cid? Tudo ou nada pode favorecer os gestos simples e solitários de mim, apesar de gostar de levantar as mãos para o céu para mostrar que meu coração não é aprisionado. Adoro as batidas do meu coração vagabundo: bim, bom, bim, bom

Lá se vão as distâncias. Os sons do sim, do não, do sino da igreja e da algazarra dos imbecis, que foram bater bumbo no inferno.

O distanciamento social politicamente infligido tem me oferecido um silencio que é uma beleza. E a injeção de ânimo? Depois eu conto.

Kapetadas
1 – Foi a minha voz, sem sombra de dúvida
2 – Saudade de sair escondido, porque era muita gente pra dar tchau, né meu filho?
3 – Som na caixa: “Don’t let me down, don’t let me down”, The Beatles

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