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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

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publicado em 28/04/2026 ás 17h30

           

Um tema recorrente em contos folclóricos e em muitas narrativas mitológicas é o da “coisa proibida”. Ele aparece, inclusive, em um dos nossos mais importantes mitos fundadores: o pecado original. Sempre pensei que, se Deus é onisciente, então sabia que Adão e Eva desobedeceriam à ordem de não comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O mitólogo Joseph Campbell diz que Deus certamente sabia disso, mas que essa transgressão era uma condição necessária para que o primeiro casal humano, de fato, começasse a viver.

Na visão de Joseph Campbell, a vida de Adão e Eva se iniciou depois da desobediência. Isso porque a experiência que se segue é a quebra da unidade atemporal, o descortinamento do mundo como uma realidade baseada em pares de opostos: vida e morte, homem e mulher, certo e errado, verdade e mentira, juventude e velhice etc. O que me parece uma interpretação bastante provocadora, porque desloca o pecado original da esfera da culpa para a própria condição da experiência humana.

O tema da “coisa proibida” pode ser visto, por exemplo, no mito da Caixa de Pandora e no conto do Barba Azul – um nobre assassino que, certa vez, viajou e entregou as chaves de sua casa à sua esposa, proibindo-a de entrar em um dos cômodos. Ela, bastante curiosa, desobedeceu e teve uma visão aterrorizante: as esposas do Barba Azul estavam mortas e penduradas na parede. Qual seria a explicação para que o mesmo tema se replique em histórias diferentes?

Campbell, como estruturalista, argumenta que uma das explicações possíveis para isso é que “[…] a psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos. A partir desse solo comum, constitui-se o que Carl Jung chama de arquétipos, que são as ideias em comum dos mitos.” Esses arquétipos assumiriam roupagens diferentes conforme as variações culturais e as circunstâncias históricas de cada sociedade; porém, seus elementos mais fundamentais, estruturais, seriam os mesmos, porque suas bases são de ordem biológica. Joseph Campbell afirma que “são essas diferenças que o antropólogo se esforça por identificar e comparar. Agora, existe também a contrateoria da difusão, que pretende dar conta da similaridade dos mitos.”

O exemplo que Joseph Campbell dá é bem esclarecedor: “a arte de lavrar o solo avança a partir da área em que se desenvolve primeiro, levando consigo uma mitologia que tem a ver com a fertilização da terra, com plantar e cultivar plantas alimentícias – mitos como aquele antes descrito, de matar uma divindade, cortá-la em pedaços, enterrar as partes, e daí o crescimento das plantas alimentícias. Um mito desse tipo acompanhará uma tradição agrária ou lavradora. Mas você não o encontrará numa cultura voltada para a caça. Assim, há aspectos tanto históricos como psicológicos nessa questão da similaridade dos mitos.” Outro argumento curioso é o de que as histórias de criação e outras narrativas mitológicas teriam como finalidade produzir as condições simbólicas e afetivas para nos abrirmos à transcendência.

A vida humana é marcada por um mistério primordial, que engloba todas as coisas e é chamado por Joseph Campbell de “vasto chão de silêncio”. Os mitos nos levam a “experimentar a presença divina”. Talvez seja justamente essa a função mais profunda do mito: não explicar o mundo de forma racional, mas nos lembrar de que há nele uma dimensão sagrada que a vida cotidiana tende a ocultar.

A partir dessa ideia, Joseph Campbell recorda uma saudação feita na Índia: “Na Índia existe uma bela saudação, em que as palmas das mãos se juntam e você se inclina na direção da outra pessoa. Sabe o que isso significa?” A resposta de Joseph Campbell é a seguinte: “A posição das palmas unidas – é o que fazemos quando rezamos, não é mesmo? Segundo essa saudação, o deus que está em você reconhece o deus que está no outro.” Essa gente tem consciência da presença divina em todas as coisas. Quando entra em um lar indiano, como convidado, você é recebido como uma deidade em visita”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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