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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Metáforas

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publicado em 04/01/2026 ás 07h00
atualizado em 04/01/2026 ás 08h51

 

Na maioria das vezes as metáforas são medonhas, saco de pancadas. Quem sempre esteve intrigado com as palavras e seus significados foi nada menos que o escritor Jorge Luís Borges, mas poucos leem Borges. Quase ninguém.

Pode-se dizer que a sua imensa e complexa literatura – de uma vida toda, e literatura não é legado, é conhecimento, mas Borges é foda. Foi em torno do mistério das palavras, das palavras perfeitas que pudessem como que substituir a própria realidade, mas existe a guerra das palavras imperfeitas. E, como se a realidade também não fosse uma arquitetura – caótica ou organizada – de palavras? Odeio esse negócio de “sextô”

Bobagens, o mundo pegando fogo e eu aqui, falando em metáfora. Metáforas não são indiretas, talvez recados, mas hoje me parece fora do contexto.

As palavras são apenas metáforas dos objetos que procuram representar. A gente chega no lançamento de um livro e haja discurso idiota, mas discursos idiotas não tem metáforas.

Um texto bacana, metafórico, alegórico, simbólico, é uma combinação de múltiplas pequenas metáforas – os vocábulos…Ah! Como eu gosto dos vocábulos – alinhados, agarrados, sujeitos e predicados, verbos, substantivos, adjetivos por um sujeito (ou vários), marcado por tempos verbais e por predicados portadores de qualidades ou quantidades, de tudo se vê por aí

 Para entender o discurso do outro, diz Borges, temos que esquecer o caráter metafórico dos vocábulos unitários para melhor compreender o sentido geral daquela fala, talvez, uma metáfora com mais cenários e símbolos outros. É uma loucura, né?

Borges tem um conto onde a um poeta celta fora encomendado pelo rei um poema sobre o palácio. O poeta faz o poema e o ensaia para dizer diante do rei. Primeiro lê o manuscrito, depois chega sem manuscrito e diz uma palavra para significar o palácio, não é a palavra “palácio”, é um vocábulo que expressa de um modo mais perfeito o palácio.

Quando ele pronuncia essa palavra, o próprio palácio do rei desaparece, como que por encanto. Já não há mais motivo de existir um palácio, quando a realidade já o substituíra por uma palavra. Pra quê tanto palácios? Sim, pra que palácio se o rei está morto?

A perfeição da palavra abstrata substitui a concretude do palácio. Na canção de Chico Buarque ele canto assim: “Já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô, cobertor, comida, roupa lavada, vida veio e me levou”.

Borges, Borges, Borges e seus seres imaginários – ele dizia que encontrar as palavras perfeitas, as que representam de fato a realidade, é uma espécie de blasfêmia contra Deus. “Deus, Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade, tanto horror perante os céus”

E aí Borges “o que é um homem para encontrar uma palavra que possa substituir uma das coisas do universo?”
Borges foi um blasfemo encantador. Você já leu Borges?

Kapetadas

1 – Não me deixe só eu tenho medo do escuro eu tenho medo do inseguro do fantasma da minha vó

2- Todo lugar por onde a gente passa deixa um amor na gente.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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