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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Morte sincrônica

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publicado em 01/03/2026 ás 07h00
atualizado em 01/03/2026 ás 08h04

Meses antes de morrer, o ator Eric Dane gravou uma última entrevista, em que  ele aparece como entrevistado e entrevistador, (suponho), pelo menos é a sensação que passa  a expressão do ator, para as duas filhas adolescentes, Billie, 15, e Georgia, 14. Uma fala impressionante, um amor, talvez, uma vontade de correr, para não morrer sincronizado, de viver mais como se existisse a eternidade.

A interrupção da vida ou a imitação dela, o silêncio, a renúncia de uma palavra de um pai jovem avisando que a vida dele não se acaba ali, (quase uma ilusão) sobre coisas de histórias da intimidade, instantes fulgurantes dessa pulsão, pelo que  fez ou deixou de fazer, é triste, viu?

Tendo como foco a doença Ella (Esclerose Lateral Amiotrófica)  destruidora total, sem que ele renunciasse ao seu texto, ao seu papel, como se estivesse em dia com a personagem, o dia ao gravar o vídeo já quase paralisado. O ator teve esse sol.

Não é fácil morrer no vídeo, por mais gosto que se tenha pela vida e todos nós temos exageradamente esse medo da morte,  o discurso de Eric Dane parecia destionado a nós, pais e filhos do mundo.

Ninguém precisou  encarregá-lo da tarefa,  invariavelmente pessoal, mas transformada não na sua melhor ´performance´, (será?) certamente, ele preferia não fazê-la  – espelho não exaltante da negatividade do mundo, de ter que partir antes do fim.

As lembranças do que eles eram, como costumamos enumerar:  primeiro tal coisa, segundo…. “Billie e Georgia, estas palavras são para vocês”, diz o pai “Eu tentei. Às vezes tropecei, mas eu tentei. No fim das contas, nós nos divertimos muito, não foi?”

Primeiro, disse ele que elas (e nós também) vivêssemos o  agora. “Neste exato momento, no presente. É difícil, mas eu aprendi a fazer isso”. Eric contou que, por anos, ficou preso a preocupações e arrependimentos. “Eu não deveria ter feito isso. Eu nunca deveria ter feito aquilo.Chega”. Por pura sobrevivência, precisou aprender a flechar no agora.

E agora, onde estamos, onde estávamos? A felicidade não é suficiente para não deixarmos os outros, pois, quando a morte chega,  felicidade dos outros fica com eles.

Eric Dane ofereceu seu caderno de notas de pé de página, notas da voz, como o ator fazia nas séries e filmes,  não como ele chama as folhas para as lembranças, sobre a síndrome da imagem, algo endêmico das brincadeiras passadas, uma espécie de quem respira junto, não para  de avivar-nos a memória e pelo desejo de revisitar as paisagens com Georgia e Bilis. É tão bonito isso…

Segundo, apaixone-se. Não necessariamente por uma pessoa, embora eu também recomende isso”. Isso dele dizer apaixone-se é tão singelo e pelo que seja, já é muito, essas coisas do sangue, sonhos, adivinhações.

Terceiro, escolha seus amigos com sabedoria. Encontre as suas pessoas e permita que elas encontrem vocês, e então se entreguem a elas”,

A amizade, não que ele tenha colocado em terceiro lugar, mas afinal, o que a gente faz da vida, sem os amigos? Quem são nossos amigos?

Não, o ator Eric Dane não foi um homem de ciência, mas ciente, ele encontrou uma forma loquente de se despedir, enquanto a gente delira cá nos trópicos, conversamos, moemos as coisas e choramos nesse vale de lágrimas.

Kapetadas

1 – Estou mais cansado do que quem atravessou o dilúvio a nado, mas não foi por nada.

2 – O público moderno tem acesso ilimitado à informação e capacidade ilimitada de não fazer absolutamente nada com ela.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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