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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

Quando Nelson Cavaquinho encontra o Rei Salomão    

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publicado em 02/01/2026 ás 15h42

Estevam Dedalus

O livro de Eclesiastes é um dos meus preferidos da Bíblia. A autoria do texto é tradicionalmente atribuída a Salomão, o sábio, filho do rei Davi com Betsabá. A relação amorosa de seus pais tem a cara de um enredo hitchcockiano, marcada pelo adultério e por um plano macabro de assassinato do marido de Betsabá, o soldado Urias.

Segundo o livro bíblico de Samuel, Davi ordenou que o comandante de seu exército abandonasse Urias à própria sorte na frente de batalha para que ele fosse morto pelo exército inimigo, impedindo assim que descobrisse que a sua esposa tinha engravidado de outro homem. O bebê morreria com sete dias de vida, cumprindo assim uma profecia anunciada por Natã. Salomão é o segundo filho do casal Davi e Betsabá. Ele se tornaria um dos grandes reis dos judeus, sempre lembrado por sua sabedoria, riquezas materiais e por ter possuído centenas de esposas e concubinas.

Não se tem certeza de que Salomão seja o autor do livro de Eclesiastes; do ponto de vista historiográfico, o mais provável é que não.  De toda forma, o fato de terem lhe atribuído a autoria ensejou condições propícias para que a obra fosse incluída no cânone bíblico. O que o Eclesiastes traz de mais interessante é a sua visão filosófica. Em muitos momentos, o autor do livro parece um ateu niilista, desiludido diante das agruras do mundo. A vida como descrita no livro parece não ter sentido nenhum, sendo em grande medida insípida e vã. Tudo é vaidade para o Eclesiastes: as riquezas, a sabedoria, o entusiasmo com a juventude; nada é permanente e segue o fluxo inevitável da morte.

A sua visão sobre a morte é materialista. Não fala em alma, em céu ou paraíso, redenção, outra vida, ou algo parecido. A morte igualaria todas as pessoas: ricas, poderosas, fracas, virtuosas ou pecadoras. A impressão é que a morte leva ao nada, quando ele diz: “(…) Os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles”.  (Eclesiastes 9:5).

O autor do Eclesiastes é um hedonista: “Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol.” (Eclesiastes 9:9). E ainda assevera: “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Eclesiastes 9:10). Como o poeta árabe Omar Khayyam, “Salomão” exalta o vinho e os prazeres: “Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz.” (Eclesiastes 9:7).

Ao ouvir os sambas de Nelson Cavaquinho, tenho sempre a sensação de que neles há um pouco dessa visão de mundo. Em especial, o seu aspecto desolador, mas que ainda vislumbra alguma saída por meio da fé em Deus. A vida é, em si, para o artista, miserável. O amor, uma certeza de sofrimento. Isso me faz lembrar de Schopenhauer: “porque é absurdo admitir que a dor sem fim, que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.”

Vejam, por exemplo, esses versos da canção Eu e as Flores: Quando eu passo/ Perto das flores/ Quase elas dizem assim/ Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim/ A nossa vida é tão curta/ Estamos nesse mundo de passagem/ Ó meu grande Deus, nosso criador/ A minha vida pertence ao Senhor.

Na música Juízo Final, por sua vez, ele assume uma visão apocalíptica e utópica como forma de compensação aos martírios da existência num “futuro transcendental”: É o juízo final/ A história do bem e do mal/ Quero ter olhos pra ver/ A maldade desaparecer/ O sol há de brilhar mais uma vez/ A luz há de chegar aos corações/ Do mal será queimada a semente/ O amor será eterno novamente.

Nelson Cavaquinho se incomoda com a ideia de homenagem póstuma. Os vivos sempre esquecem dos mortos, dizia, por isso cantava esses versos: Se alguém quiser fazer por mim/ Que faça agora/ Me dê as flores em vida/ O carinho, a mão amiga/ Para aliviar meus ais/ Depois que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade/ Quero preces e nada mais.

Poucos tiveram a fortuna de cantar de forma tão magnífica e bela a angústia, o sofrimento e o desalento com a vida como Nelson Cavaquinho. O seu cancioneiro permanece vivo e atemporal como as dores invocadas pelos versos da canção Minha Fama: Quando eu morrer/ Deixarei minha fama/ Deixarei no mundo quem me ama/ As lágrimas que rolam em meu rosto/ Não sabem dizer qual é o meu desgosto/ O meu coração é uma casa de sofrimentos/ Nele que guardo todos os meus sentimentos/ Às vezes choro pra me desabafar/ Mas não digo a ninguém a causa do meu pesar.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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