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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginarodriguez@uol.com.br

Saga do nordestino

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publicado em 29/11/2020 às 11h47
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Guilherme é filho mais velho de uma família de 8 irmãos. Nasceu numa região da Paraíba em que chove dois meses ao ano e tem 10 meses de sol torrando tudo sobre a terra. Era um povoado com 15 casas. Viveu 19 anos nesse lugar. Sempre desejava crescer, sair daquele local que apresentava poucas perspectivas e muitos questionamentos. Quando tinha 7 anos inquiriu seu pai, agricultor rude e semianalfabeto, dizendo: Meu pai eu não vou para a escola não? Como? Você já está na escola. E onde? Eu não vejo lápis, caneta? Está aí em sua mão apontando para a enxada que Guilherme segurava. E o caderno? Disse é a terra. Mas eu não estou vendo letras? São as sementes que você está plantando. Seus bens resumiam-se a uma espingarda, a enxada e a terra. Havia três regras que seu pai pregava: não pode matar, roubar e nem mexer com as filhas dos outros. Porque se mexer ou casa à força ou morre. Nos meses que chovia tinha que se plantar rápido o feijão, a fava, o milho e o algodão para vender, pois essa reserva garantia a compra de carne seca e um saco de pão que tinha que durar até a feira do sábado seguinte, quando se adquiria novos alimentos. A carne seca não era para comer mas ficar pendurada em cima do fogão enquanto o feijão cozinhava e o bafo que subia até a carne pingasse na legominosa, a fim de dar-lhe gosto. Comia-se com farinha; com a mão fazia-se bolinhos ao molho de pimenta. A água era armazenada numa cisterna de onde bebiam os bichos e todos da casa, e que devia durar até o próximo inverno. O banheiro era a céu aberto, com paredes de cerca de palha de coco, onde as fezes ficavam expostas e as galinhas faziam a reciclagem. Frango só se comia no Natal e no final do ano; ovo o ano inteiro.

Guilherme, já homem, não possuía documentos e soube que para viajar teria de adquiri-los. Foi com a mãe ao cartório da cidade e lá chegando o tabelião perguntou-lhe: Quantos anos ele tem? Ela falou: não sei. O escrevente indagou: diga alguma idade aí. Nasceu quando? Sua mãe não sabia responder. Insistia o chefe do cartório: tem que informar alguma data. Então foi dito 03 de março de 1955! Tem 19 anos. Afinal, o escrivão forneceu-lhe o documento. A princípio não queria dizer aos pais seu desejo, pois sabia que não o apoiariam. Apurou um dinheiro com a venda da agricultura e foi à cidade montado num jumento, transporte da época, a fim de comprar a passagem para o Rio de Janeiro, no balcão da Itapemirim ao preço por 56 reais. Numa sexta-feira Guilherme estava viajando. Em casa, houve choro e reclamações mas estava decidido a ir embora. E assim o fez. Seu pai, mesmo contrariado, colocou um dinheiro em seu bolso para as pequenas despesas. No Rio, encontrou uma irmã que trabalhava em Copacabana, como empregada doméstica; seu esposo era porteiro do edifício onde morava em pequena dependência que os abrigava.

No apartamento da irmã, Guilherme permaneceu por um mês. Então tomou a decisão de arranjar um emprego. Pegou o ônibus 474 e foi até o fim da linha. Saltou e ficou andando até encontrar um portão aberto e muitos atletas jogando. Hesitou um pouco mas tomou coragem e adentrou ao local. O técnico do time o abordou: Que está fazendo aqui? Ele disse: quero trabalhar. Você tem casa? Comida? Família? Ele disse: não. Ah! você não quer só trabalho você quer casa, comida, pai e mãe. Ele disse: É. Hoje Guilherme é aposentado mas continua trabalhando no clube, onde atingiu um alto posto. Ao todo faz 46 anos de clube do Rio. É querido e estimado por todos e já se constitui num patrimônio da agremiação. É bem casado, pai de três filhas: uma adolescente, as outras duas são formadas em veterinária e psicologia. Ambas atletas, já chegaram a ser campeãs olímpicas. Constituíram família, moram muito bem na Gávea, possuem imóveis que lhes dão boa renda. Vem ao nordeste a passeio, rever os familiares, a cada ano.

Seu pai faleceu no mesmo distrito onde nasceram e moravam nos primórdios. Sua mãe, com a morte do esposo, recebeu dos filhos uma casa na cidade, mas hoje também é falecida. Os irmãos de Guilherme todos estão em boa situação. A irmã que lhe deu hospedagem no Rio, mora em apartamento nas Laranjeiras, tem seus filhos formados, casados e bem sucedidos. Um deles é pastor de uma grande igreja. Outro é funcionário de uma importante emissora de rádio e TV, há quarenta anos. Um terceiro é empregado (mordomo) de uma família portuguesa, muito rica. Vive em Búzios, zela pela mansão e toma as providências necessárias para que tudo esteja sempre em pleno funcionamento. O proprietário vem de dois em dois anos. Outra irmã vive condignamente aqui em Joao Pessoa ao lado da família, tendo filhos casados e bem encaminhados.

Esta história teve início há quarenta e seis anos, época em que a vida no interior era muito difícil e famílias, como a de Guilherme, teriam que lutar para sobreviver e ter o mínimo para se sustentar. Faltava tudo, o alimento teria que vir do que se plantava e a terra era seca e nada conseguia prosperar. Às vezes só tinham farinha de mandioca que comiam com água, feijão, sal e cactos. Conheço a família: sua força de vontade serve de exemplo para todos nós. Tal realidade faz lembrar Euclides da Cunha em “Os sertões” (foto) (1902). É dele a célebre frase: “o sertanejo é antes de tudo um forte” em que mostra a bravura e a garra do homem nordestino e Guilherme é protagonista na sociedade em que vivemos.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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