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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: [email protected]

No país dos sacis

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publicado em 02/01/2026 ás 20h09

Quando um saci nasce, seus pais sabem que ele terá uma única perna, só não sabem se será a perna direita ou a esquerda. Não se preocupam com isso porque na cultura deles a falta de uma perna é o símbolo da fraternidade já que faz com que o saci se apoie no ombro de outro saci que tenha a perna que lhe falta para uma caminhada mais tranquila. Ao invés de saltitar numa única perna, cansando rapidamente e maltratando o corpo pela postura inadequada, é no abraço ao oposto que o saci anda mais rápido, mais confortavelmente e chega mais facilmente ao seu destino, que sempre será o destino comum ao outra saci no qual se apoia e serve de apoio.

Nem sempre foi assim. Na origem, quando ainda eram praticamente irracionais, os sacis brigavam por tudo e sem qualquer razão. O pior é que nas brigas tentavam usar a única perna para agredir o opositor e fatalmente caiam, machucando- se ao invés de machucar o outro saci. Com o passar do tempo deram-se conta da bobagem que era tentar impor sua vontade aos que tinham a perna oposta, porque chegaram à insuperável conclusão que era burrice tratarem-se como inimigos somente porque tinham pernas à direita e à esquerda.

No entanto, até que chegassem a essa conclusão, foram explorados durante muito tempo pelos sacis desonestos, picaretas, que alimentavam o ódio entre os sacis pernas direitas e os sacis pernas esquerdas, com o claro objetivo de tirarem proveito próprio. É que periodicamente os sacis reuniam-se ao redor de fogueiras para escolher aqueles que iriam tomar as decisões em nome do grupo por um período de quatro anos e a esses escolhidos eram dados direitos incríveis, inventados pelos próprios escolhidos, como por exemplo receber 40% do que os sacis comuns coletavam de alimentos, “trabalharem” somente 3 dias a cada semana e principalmente elaborar leis sobre como fazer as próximas escolhas dos representantes, o que eles faziam de tal forma que nenhum saci que não estivesse no grupo de dirigentes pudesse ter acesso aos privilégios deles.

Como faziam isso? Exatamente alimentando a disputa entre os sacis de pernas direitas e os sacis de pernas esquerdas. Enquanto a sacizada se engalfinhava eles riam à socapa, até que um dia a plebe ignara entendeu a trama. Simplesmente decidiram que não iriam mais hostilizar seus opostos das pernas direitas ou esquerdas. Da compreensão nasceu o novo sistema, que se bem mantenha cada saci com sua perna, respeita o que de comum podem fazer juntos.

Como andarem se apoiando, por exemplo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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