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O adeus a um Pastor, Mestre e Viajante

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publicado em 10/03/2026 ás 11h35

O Adeus a um Pastor, Mestre e Viajante
É um momento de profunda saudade, mas também de uma gratidão imensa. Celebrar a passagem de alguém que viveu 92 anos, dos quais 70 anos dedicados ao sacerdócio, não é apenas falar de uma carreira religiosa, é falar de uma vida inteira entregue a um propósito maior, amar a Deus.
Hoje rompo a pausa de algumas crônicas, não para lamentar a ausência, mas celebrar a jornada extraordinária de um tio querido. Monsenhor Agnelo Dantas Barreto, partiu! Carimbou seu último passaporte com São Pedro, em sua derradeira viagem.
Deixou uma marca salutar, numa história de setenta anos dedicados à vida sacerdotal, que não é para qualquer um. Se pararmos para pensar, são sete décadas de mãos estendidas dedicadas a dar uma palavra de conforto e de distribuir uma fidelidade inabalável ao altar. Ele não apenas vestia a batina, ele a honrava com amor.

Ele uniu o melhor dos mundos, o espiritual com o intelectual, ao ser fundador de cursos da UFRN, encontrou na filosofia e psicologia um monte certeiro para falar de Deus, e, ainda, espalhar um legado acadêmico que formou gerações. Para ele, fé e razão sempre caminharam juntas, pois não bastava rezar, contemplar os mistérios divinos, era preciso compreender a alma humana, ensinando que questionar fazia parte da busca pela verdade, que encontra no conhecimento uma das formas mais extraordinárias de amar ao próximo.

Mas o tio Padre ou Papa como chamávamos, não era feito apenas de livros e orações. Ele tinha a vivacidade de quem sabia aproveitar as cores do mundo. Torcedor do Botafogo do RJ e do ABC, quantas vezes fomos juntos ao Castelão assistir ABC x América, eu bem pequena, com apenas 5 anos de idade, o acompanhava com o Bispo, Dom Nivaldo Monte, nas rodadas do campeonato norteriograndense de futebol, como torcedora ávida do ABC, numa época em que violência não fazia parte do dicionário. Para ele, o futebol era como a vida: exigia paixão, paciência e esperança, mas que o próximo gol sempre viria.

Ele era um cidadão do mundo. Amava viajar, cruzar fronteiras, conhecer novas culturas. Cada viagem era um novo capítulo que ele trazia na bagagem, pronto para ser compartilhado em família nos almoços de domingo. Dizem que quem lê e viaja, não tem tempo de ser infeliz.
Se isso é verdade, meu tio viveu nove décadas fazendo o bem. Partiu levando o passaporte carimbado de visitas pelo mundo, inúmeros países, muitas línguas e culturas, deixando aqui uma biblioteca de exemplos, que nos fascina.  Ele leu a vida como um livro aberto e escreveu sua própria história com tinta de bondade, como pastor, mestre e viajante.

Seu caminho foi marcado pela santidade, ao poder caminhar de mãos dadas com a sabedoria, e com amor, Ah! O amor, como ele gostava de falar, era a única linguagem universal, que não precisa de tradução em nenhum lugar do mundo, em nenhuma língua e cultura qualquer.

Hoje ele descansa na igreja a qual serviu por mais de meio século, responsável pela reforma com a Fundação José Augusto, que retirou a matriz de uma igreja esquecida, para a mais requisitada para as bodas dos natalenses.
Ele repousa numa tumba reservada aos bispos, que ele mesmo achou de criar, ao lado de Nossa Senhora da Apresentação, encontrada nas margens do Potengi, com uma mensagem: onde essa imagem chegar, nenhuma desgraça acontecerá. Para quem devotou tantas festas da padroeira, e escreveu a uma estrofe do seu hino:
“Mulher vestida de sol/ nela a graça triunfou/ esmagando a serpente/ o seu filho nos doou/ vamos juntos aplaudir/ a Mãe da Apresentação/ viva a nossa padroeira/ nossa estrela e proteção”
Descanse em paz, entre as estrelas e livros, na sua viagem final, no maior estádio que o Senhor preparou para quem semeia o amor.
Como você gostava de cantar no final de todas as missas: Que Deus vos dê a sua graça, que Deus vos dê a sua benção, que Deus vos dê a sua graça, e resplandeça sua face entre nós!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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