João Pessoa, 13 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC
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O marido teve um AVC e ficou impossibilitado de viver, de viver e outras coisas, de andar, de poder sentir o papel que ele perdeu, de olhar de lado, de seguir em frente, de ser dono do seu nariz ou morrer.
A mulher o leva para o passeio público, ele gosta. A cuidadora é jovem sorridente e o faz se sentir gente nos feitos últimos cortes essenciais da vida de uma pessoa. O nome dele é Sebastião e assim, magro, não vejo as marcas das flexas em seu corpo, mas o mundo é um moinho, como disse a amiga J, – o mundo capota, não gira.
A mulher sentada numa espreguiçadeira, feliz, vendo o circo, seu país colorido, um papelão machê, que papel! E o olhar do outro lá para lá ou cá, não tem já tanto jeito, sequer esperança.
Uma menina dança ao ver o mar outra vez, vai mais fundo do fundo do fundo se for por alguém, mas esse alguém é ela mesma, a paisagem constante e trôpega que soa como se reclamasse o assedio dos homens- mas só falta dizer – é de graça, pode olhar.
Eu fiquei olhando a menina, uma moçona né, de 22 anos, que felicidade, ela de biquini azul e apenas um fio fazia a divisisória das duas bandas da terra, uma visão repetida num calor infernal. A tarde caia. Caiu.
No cenário anterior muitos turistas vermelhos queimados de sol, onde se perderam nas referências, mas nessa hora, a mulher olha para o Sebastião e diz: – “Amor, olhe aquela moça, a bunda de fora”. Ele demora a fazer o movimento do pescoço e sorrir, sabendo que os sóis de estações outras já estão mortos.
Todos riem. Acham incrível o movimento, alguns seguem à proa nos estendais, como se estivéssemos no Titanic. O outro homem da esquerda, também do Clube do AVC esticou o olho para ver a menina de biquini azul – a mulher dele, fez uma gracinha.
De longe seguram velas, sem caravelas, ali onde uma bunda foi cutucada com os olhos.
O terceiro homem, (eu era o quarto e estava em pé, de passagem), sim o terceiro homem que não integra o clube do AVC, não se mexeu na cadeia de pensamentos.
Aprender a proeza é uma tarefa difícil
Kapetadas
1 – Hérnia inguinal, flatulência, aderência, azia crônica, constipação, hipertensão, erisipela, insônia, ansiedade, depressão. Isso é o fim do mundo.
2 – Lembre-se: a gente só é levado a sério quando para de pedir permissão para existir.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 16/12/2025





