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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

O maldito celular

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publicado em 30/05/2021 às 11h45
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Fazendo um retrospecto sobre o celular, constata-se que surgiu em 1947 da ideia de engenheiros que tinham o propósito de construir um sistema de comunicação rápido através de telefones sem fio. A evolução foi acontecendo não só no aspecto físico, pois eram muito pesados, como no aspecto tecnológico. Em 1956 a Ericsson desenvolveu o Ericsson MTA Mobilie Telephony . Em abril de 1973, em Nova York, a Motorola elaborou o modelo Motorola Dynatac 8000X. A primeira ligação foi realizada por Martin Cooper, diretor de sistemas de operações da empresa Motorola. Em 1979, entrou no Japão e na Suécia, 1983 começou nos Estados Unidos. No Brasil, em 1990, no Rio de Janeiro e, em seguida, em São Paulo. Daí por diante foram avanços sucessivos. Surgiram: a segunda geração Short Message Service (SMS) cuja tradução é serviços de mensagens curtas, cuja primeira mensagem de texto foi enviada no ano de 1993, através de uma operadora da Finlândia; O celular deixou de ter função exclusiva de comunicação mas integrou câmera fotográfica, reprodutor de músicas, conteúdos com os APP (aplicativos), que vão desde culinária, jogos, redes sociais, livros, GPS, etc. Apareceu com quatro mil cores e hoje tem 16 milhões de cores. É aparelho de alta resolução. Apresenta mensagens multimídia, com envio de imagens para outros contatos; o serviço, a MMS, o envio de vídeos e e-mails. Finalmente, o celular incorporou a internet e aí os aprimoramentos foram contínuos. Temos Android (Google), IOS (Apple) e Windows Phone (Microsoft). A conectividade teve aumento grande, com redes 3 a 5G. É ter tudo o que você precisa em sua mão, sem precisar ir a uma biblioteca, fazer compras e transições bancárias, assistir programas favoritos etc. No mundo pós-moderno ficar de fora desse contexto é sentir-se excluído. Ele representa uma ferramenta espetacular a serviço do homem.
Essa tecnologia veio para ficar. E por que dizer tudo isso? Uma amiga docente, muito religiosa e caridosa, sempre lida com grupos de artesanato, onde se reúne para realizar alguma coisa que se reverterá em caridade que beneficia pessoas humildes da comunidade. Tem uma filha pequena que a acompanha e brinca com outras crianças filhas das amigas artesãs. A professora observa que Suely, a amiguinha de sua filha que possui a mesma idade, 8 anos, apresenta-se muito pequena, o que chama atenção. Conversando com Olivia, sua mãe, Agnelli propôs levá-la a um endocrinologista, já que ia também com sua filha. Seu pai, militar, muito ocupado, e Olivia, trabalham muito e não dispõem de tempo para fazê-lo. Assim foi feito. As duas crianças foram ao médico e qual foi a surpresa? Durante a espera do atendimento observou a menina muito interessada num celular de que não desgrudava, foi quando passou o olho viu uma coisa estranha e solicitou da garota o celular. Ela ficou espantada, relutou, mas enfim cedeu. O que mais causou susto foi o que viu no conteúdo, eram pornografias e práticas de sexo explícito. Ainda, na ante sala do consultório, falou que ia conversar com sua mãe e que só entregaria a ela o telefone. Esta, com certeza, não desconfiava nem de longe que isto estaria acontecendo. A criança rolou nos prantos. Os pais viviam muito ausentes e não havia condições de manter-se vigilantes com relação ao comportamento da filha. A ausência da mãe e do pai dava oportunidade de a criança estar sozinha sem nenhum acompanhamento. Eles tomaram conhecimento e impuseram vários sansões, regras e medidas, mas isso não será o suficiente para apagar da mente o que aqueles vídeos e informações lhe influíram. Só o tempo dirá.
Essa semana chega ao nosso conhecimento pela rede social de que uma criança, por causa de um celular, se jogou do 9º andar do prédio vindo a falecer. Sua genitora constatou que a 1 hora da manhã ela estava usando o celular e como toda mãe cuidadosa reclamou insistindo que o largasse, dialogando e argumentando, no que não foi atendida. Terminou sua mãe tomando o celular o que a deixou indignada. Passado algum tempo a mãe sentiu o silêncio e foi ver se havia se acomodado. Ao chegar no quarto não a encontrou. A garota, com uma tesoura, havia cortado a rede de proteção e cometido o desatino. A família entrou em desespero e não havia como não. A criança era uma filha muito esperada e amada, depois de 16 anos do primeiro filho nasceu Aline, todos da casa a acarinhavam. O caso encontra-se na justiça para investigação e muita coisa estranha aparece, segundo informação na internet, como três números de telefones fora do estado. Depois desse caso há informes que outros semelhantes estão ocorrendo em outras cidades. E várias notícias dessa ordem vão surgindo aterradoras. Diante de tal situação o que fazer?
As mídias utilizadas são importantes para o mundo, onde o celular é algo essencial para nosso dia-a-dia. A comunicação é primordial. Está presente em todo lugar, em redes sociais, TV, rádio. A União Internacional de Telecomunicações considera que o telemóvel, como tecnologia, foi a mais rápida técnica adotada de toda história da humanidade. Converteu-se num computador. É através dele que as pessoas se comunicam de maneira veloz e simples por meio de sms, ligações, ou até mensagens feitas pela internet. É ferramenta indispensável. Hoje, quem não o possui torna-se desconectado do mundo.
Nesse contexto, a situação abordada transforma-se num desafio. Como proteger nossas crianças dessa crueldade do mundo tecnológico que é fascinante, competitivo, concorrente e as habilidades em seu manuseio representam inteligência, êxito e sucesso como pessoa. O seu domínio nessa época de pandemia foi muito proveitoso como complemento aos estudos e aprendizados escolares suprindo, assim, ao que ficou deficitário. Ao mesmo tempo que atribuímos benefícios, somos sabedores que podem causar males irreversíveis. A criança, perante o estado, encontra-se protegida pela Lei 8069/90, o Estatuto da Criança e Adolescente, que rege os Conselhos Tutelares, dando poderes para que seus membros possam fiscalizar para que denúncias de qualquer violação de direitos da criança e adolescente nas comunidades, possam chegar à justiça, nos casos de confirmação de abuso sexual. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança foi realizada pela ONU em 1989. A partir daí foi criado pelo Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente. “Considera-se criança a pessoa até 12 anos de idade incompletos e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”.
O psicólogo Jean Piaget (1896-1980), estudioso do processo evolutivo mental da criança, dividiu-o em estágios. Para cada um apresenta as competências de domínios motores e cognoscitivos da aprendizagem indo do 0 até 12 anos, quando atinge o que chama de operações formais. Caracteriza este último pela capacidade de inventar e solucionar problemas, chamada de terceira infância, como é a fase em que a criança atinge sua moralidade autônoma, o julgar e entender, o que é certo e que é errado. Isto demonstrado por motivações, habilidades e intenções. As crianças abordadas nesses relatos estavam na fase da moralidade autônoma o que quer dizer descortinando o que é o certo e o que é errado, construindo sua personalidade que repercutirá no futuro adulto. A criança de hoje é o homem do amanhã.
A problemática que envolve a criança e o uso da tecnologia é complexa e foge ao controle das pessoas que estão ao seu entorno. A criança é um ser frágil e dependente. Não basta o poder público assegurar a proteção, mas além dele, em primeira instância é a família responsável para efetivação desses direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. É no seio da família que se dá o processo de desenvolvimento mental. É ela que deve exercer o papel do educador com amor para protegê-la dos perigos. Vigiar como são usados os jogos AmogUs, MineCraft e FreeFire, fazer o acompanhamento é necessário. Cabe executar a paternidade responsável, e estar sempre atenta e vigilante, para que possa prevenir dissabores futuros. Um vacilo nesse sentido não terá mais volta. Empregar os ensinamentos com carinho, delicadeza, dialogando, mas também com energia e determinação. A criança tem necessidade de ter a seu lado um adulto firme em suas ações educadoras. A verdade, apresenta-se como ferramenta da razão. Com certeza teremos no futuro um adulto ajustado. Vamos nos dar as mãos para protegermos nossas crianças que são o maior patrimônio de nossa nação. Quem ama cuida, como diz Lya Luft.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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