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A professora Erika Marques, Reitora do Centro Universitário Uniesp, é mestre em Desenvolvimento Humano pela UFPB, tem MBA em Gestão Universitária pela Georgetown College e é especialista em Planejamento, Implementação e Gestão em Educação à Distância. Sempre atuou na gestão do ensino superior em âmbito nacional, passando inclusive pela UNISA em SP e em outras instituições de relevância como consultora.

2020, o ano que não acabou

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publicado em 24/02/2021 às 06h52
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É clichê o titulo desse artigo, tendo em vista a grande quantidade de textos publicados de forma homônima. Não bastasse, em 1989, o jornalista mineiro Zuenir Ventura escreveu o livro “1968: o ano que não terminou”, desse modo, nada novo além do grande furacão inimaginável (e minimizado) que estava por nos atingir naquele março de 2020 em plena ressaca carnavalesca.

O “maluco beleza” Raul Seixas, predisse o dia 17 de março de 2020, ainda que não tenha tido intenção (quem sabe?), em sua canção: “Foi assim, no dia em que todas as pessoas do planeta inteiro resolveram que ninguém ia sair de casa, como que se fosse combinado em todo o planeta. Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém, ninguém. O empregado não saiu pro seu trabalho, pois sabia que o patrão também não tava lá…” (O Dia em a terra Parou, de Cláudio Roberto e Raul Seixas).

Em março de 2020, nos foi apresentado o COVID-19, ou “novo coronavírus” como passou a ser chamado. Ainda sem sabermos o que estava por vir, as vidas pausaram, as pessoas tiveram que se adaptar em uma mobilização nunca antes vista na história recente e o mundo parou. Escolas, igrejas, parques, shoppings, restaurantes, todos fechados e pessoas isoladas em suas casas. Enquanto as ruas se esvaziavam, os hospitais ficavam cheios, e o inimigo ainda desconhecido em sua formatação genética, passou a ser o foco principal da comunidade científica em busca da tão desejada vacina. Inclusive todos sonharam que ao ser descoberta a formula mágica da vacina, tudo seria resolvido e o nosso velho normal estaria garantido…

Mas não foi bem assim, nem poderia ser. Um problema tão complexo e com impacto de parar o mundo, não seria resolvido em um piscar de olhos, principalmente quando a solução foi encapsulada como sendo a vacina o único remédio, porque naturalmente isso nos tira a responsabilidade da disseminação e propagação do vírus e, obviamente, como sempre, apontar para o outro parece ser mais fácil. Nessa dinâmica, as pessoas foram se excluindo da responsabilidade sobre o vírus, que desde o início sabe-se as duas formas de vencê-lo: pela vacina e pelos cuidados individuais, em linhas gerais, como higienização adequada, uso de máscara e distanciamento social.

Na realidade, quando as portas foram afrouxando e as pessoas voltando às ruas, comércio retomando, bares e restaurantes idem, a falsa sensação de que o problema estava controlado e chegando ao seu fim, gerou um efeito rebote gigantesco. As pessoas até saem de máscara, mas na animação dos bares e restaurantes, por vezes não controlam a empolgação e retiram-na; máscara nas praias não dá; álcool nas mãos às vezes se esquece; higienizar alimentos é patético e cansativo. Por mais que seja uma grande ironia, a vacina chegou e o problema piorou.

Piorou porque as pessoas não tomaram para si a responsabilidade ativa e, boa parte ainda fez o desfavor de minimizar seu poder-responsável de intervenção. Piorou mais ainda, porque é muito mais fácil apontar para o outro, se eximir do seu papel. Devemos entender de uma vez por todas, e já temos tempo suficiente – após quase um ano de pandemia, que nós temos o poder de barrar e diminuir o contágio do vírus, com medidas simples, somadas um a um, alcançamos um grande coletivo. A pandemia não é apenas um problema mundial, é um problema individual, no qual cada um tem a sua dose de atuação e importância para o seu controle e fim.

Ontem, na Paraíba, onde resido, foi publicado um decreto com medidas restritivas, fazendo o papel de uma mãe que põe mais uma vez o filho de castigo por desobedecer as suas ordens. E com toda razão, pois, as pessoas enlouqueceram em busca de uma liberdade prematura e minimizaram a potência do vírus, voltando a se aglomerar como se fossem obras de um milagre divino, seres inalcançáveis e inatingíveis pela pandemia.

Certa vez, um grande gestor em tom de brincadeira ao me convidar a ir visitar sua outra instituição e, ao ouvir que eu iria “assim que a poeira baixasse”, disse que quando a poeira baixava, eu assoprava. Ele se referia ao fato de eu estar sempre em muitas atividades. Mas me pego agora pensando nisso, obviamente em um outro contexto e penso que também se aplica ao que está acontecendo agora conosco. Quando a poeira começou a baixar, baixou também o senso crítico e, assim, a irresponsabilidade (individual e coletiva) soprou forte…

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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