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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

Três pensadores geniais

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publicado em 05/02/2021 às 06h18
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Sabemos, precisamente, que o ano de 2020 jamais será esquecido pela humanidade. A pandemia da COVID-19 e a recessão econômica de 2020 abalaram o mundo e o Brasil. Infelizmente, milhões de mortos e de desempregados no planeta e no Brasil. O futuro das economias mundial e brasileira em 2021 irá depender da vacinação em massa.

Um bom exemplo é Israel que já vacinou mais de 60% da população (OUR WORLD IN DATA, 2021) com as vacinas da Pfizer/Biontech e da Moderna contra o SARS-CoV-2, além do terceiro lockdown contra a variante britânica do novo coronavírus, que continua ameaçando mais de 9 milhões de pessoas e fragilizando a economia israelense.

Em casa, em isolamento social, esperando a minha fase da vacinação contra a COVID-19 no Brasil, continuo lendo, relendo e lendo de novo livros e e-Books. Recentemente, eu li o livro intitulado “O paraibano Celso Furtado: centenário de um pensador genial”, organizado pelos professores Rômulo Soares Polari e Ivan Targino Moreira, de 2020. Nesta relevante obra pela Editora A União, com 398 páginas, chamou muito a minha atenção a pertinente citação do economista paraibano Marcos Formiga (2020, p.185), “(…) Celso Furtado é tão importante para a Economia Brasileira como Adam Smith (foto) para a Ciência Econômica”.

Smith e Furtado nasceram no interior do seu país e seus pais eram advogados e suas mães eram de família de proprietários de terra. Adam Smith nasceu em Kirkcaldy, em 5 de junho de 1723, em uma pequena cidade portuária na Escócia. Quase dois séculos depois, nasceu Celso Monteiro Furtado em Pombal, em 26 de julho de 1920, em uma pequena cidade sertaneja na Paraíba.

Smith e Furtado moraram na França em séculos distintos. O filósofo e economista escocês Adam Smith viajou para trabalhar como tutor do Duque de Buccleuch e morou em Toulouse entre 1763 e 1765. Em seguida, de dezembro de 1765 até outubro de 1766, em Paris. Smith teve diálogos com filósofos franceses como Voltaire e Diderot e com economistas franceses como Quesnay e Turgot.

Já Celso Furtado viajou em dezembro de 1946 para estudar e concluiu o seu doutorado em Economia na Universidade de Paris-Sorbonne, em junho de 1948. Posteriormente, em 1965, Furtado viajou para trabalhar como o primeiro professor estrangeiro na cátedra de Economia do Desenvolvimento, na Universidade de Paris-Sorbonne, com nomeação pelo então presidente francês Charles de Gaulle. A neta de Celso Furtado, a socióloga Sofia Caselli Furtado destacou (2020, p.39) que, “Durante vinte anos foi professor da Sorbonne”. Furtado foi influenciado pelos economistas franceses François Perroux e Maurice Byé na construção do seu próprio pensamento econômico e tornou-se amigo do filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Adam Smith e Celso Furtado são dois pensadores geniais que estudaram e escreveram sua obra-prima no Reino Unido. A obra-prima de Adam Smith é “The Wealth of Nations” (A Riqueza das Nações), de 1776. E a obra-prima de Celso Furtado é “Formação Econômica do Brasil”, de 1959. O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Ivan Targino (2020, p.137) revelou que, “Com efeito, o título da obra de Adam Smith, “Um inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das nações”, não deixa dúvidas a respeito da preocupação do fundador da escola clássica com o progresso das nações”.

Concordo com a secular frase de Adam Smith (2020, p.138), o pai da economia moderna, “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz, se a grande maioria de seus membros forem pobres e miseráveis”. O Brasil é o oitavo país mais desigual do mundo (PNUD), com 51,742 milhões de pessoas vivendo na pobreza e 13,689 milhões na extrema pobreza (IBGE). De acordo com o professor Ivan Targino (2020, p.140), “É interessante observar que, ao definir o processo de desenvolvimento, Furtado recupera, parcialmente, a visão de Smith ao afirmar que o desenvolvimento é o processo que implica melhoria das condições de vida da população”. Smith e Furtado foram defensores da industrialização da economia do seu país, em suas respectivas épocas. A Revolução Industrial começou na Inglaterra no século XVIII e já estamos em plena Quarta Revolução Industrial.

Destaca-se na obra a frase do filho de Celso Furtado e professor de Economia na UNICAMP, o economista André Tosi Furtado (2020, p.297), “Celso Furtado foi o pensador brasileiro que se dedicou com mais afinco à reflexão sobre o desenvolvimento”. O progresso econômico com desenvolvimento social no emergente Brasil depende do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), pelo aumento da produtividade, e do atendimento das necessidades sociais da população.

O economista Adam Smith criticou ferozmente o mercantilismo, bem depois, o pensamento liberal de Smith foi muito criticado pelo economista inglês John Maynard Keynes ao revolucionar a economia com a publicação da sua obra-prima “The General Theory of Employment, Interest and Money” (A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda), em 1936. Entre novembro de 1957 e fevereiro de 1958, na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Furtado estudou a macroeconomia keynesiana no seu pós-doutorado em Economia e Keynes foi um dos principais influenciadores do seu pensamento econômico de cunho desenvolvimentista-nacionalista. Na Inglaterra, Furtado escreve o livro “Formação Econômica do Brasil”.

Keynes e Furtado são dois pensadores geniais que frequentaram a secular biblioteca da Universidade de Cambridge (atualmente, com mais de 8 milhões de volumes) na busca incessante do conhecimento para a geração de emprego e a distribuição da renda nos países capitalistas. Na Universidade de Cambridge, Furtado conviveu com os economistas Nicholas Kaldor, Amartya Sen (Prêmio Nobel de Economia de 1998) e Joan Robinson. Concordo com o ex-reitor da UFPB, o professor Rômulo Polari (2020, p.17), “Celso Furtado é reconhecido como um dos grandes intérpretes do Brasil”. Em sua obra-prima Furtado aborda os principais ciclos econômicos (ciclos da cana-de-açúcar, do ouro, do café e da borracha) do Brasil numa abordagem histórica e econômica.

De 2010 para 2020, o crescimento médio do PIB brasileiro foi de apenas 0,2% ao ano, depois de uma retração estimada em 4,4% em 2020. O atraso socioeconômico é visível ao enxergar mais pessoas morando na rua e mais estabelecimentos comerciais fechados. A dívida pública bruta já chegou a 89,3% do PIB em dezembro de 2020 (BACEN) e a elevada taxa de desemprego já alcançou 14,1% no trimestre de setembro a novembro de 2020 (IBGE). Mas, o continental Brasil tem uma das maiores áreas agricultáveis do mundo e é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de açúcar, café, soja, suco de laranja, carne de frango, carne bovina, celulose, etanol, milho e frutas tropicais. A última previsão do Relatório Focus é uma recuperação da economia brasileira de 3,5% em 2021 (BACEN). Já atual previsão do FMI é de crescimento de 3,6% no PIB do Brasil no ano de 2021.

Destacamos que os três pensadores geniais foram grandes professores, célebres economistas que liam muito e eram contra os elevados impostos e as altas taxas de juros. No Brasil, a taxa básica de juros continua 2% ao ano desde 5 de agosto de 2020, mas a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito avançou para 328,1% ao ano em dezembro de 2020. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de dezembro de 2020, da CNC, apontou que 66,3% dos consumidores estão endividados nas cinco regiões do País (AGÊNCIA BRASIL, 2021).

Por fim, a transmissão de uma nova variante do novo coronavírus, o fim do auxílio emergencial, a inflação em alta e a elevada carga tributária criam incertezas no rumo da economia brasileira para o primeiro semestre de 2021. Finalizo, com o pensamento de Celso Furtado no livro “O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil”, de 1999: “Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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