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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

Adriana e a poesia!

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publicado em 02/09/2020 às 07h00
atualizado em 02/09/2020 às 04h40
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“Quanto mais cedo se entra em contato com a poesia, melhor. Melhor para as crianças, portanto, melhor para o mundo”, afirma Adriana Calcanhoto (foto), em entrevista, para a revista Cult. Esta poesia, quero crer, pode ser a poesia das coisas, das pessoas, das emoções, das experiências, das crenças, das lendas, do imaginário, ou seja, da própria vida e seu carrossel de agruras e milagres. E pode e deve ser a poesia da linguagem, da palavra, do verbo, do substantivo, das sílabas e dos fonemas. Enfim, do discurso vocabular articulado com base, sobretudo, no solfejo do ritmo, na aquarela das imagens e na surpresa das ideias.

Há, sem dúvida, uma inquietação pedagógica no pensamento da cantora gaúcha, ela mesma preocupada com a invariável e sugestiva relação da criança, mas da criança de qualquer idade, para não excluirmos o adulto, sobremodo o adulto sensível, com a poesia e seus mágicos artefatos. Por exemplo, a poesia que se canaliza em sua própria voz e que se materializa em canções de melodias e letras inventivas e originais, uma vez que são convocados, para a cena de suas interpretações, elementos de outras linguagens, como a literatura, o cinema e as artes plásticas.

A cor dos olhos, o som dos olhos, a voz dos olhos, o calor dos olhos da própria Adriana me soam aguda poesia, assim como me soam aguda poesia o timbre de sua voz e o modo entre lúdico e desesperado de cantar, mais do que cantar, falar e gemer o avesso das coisas, a invisibilidade do tormento e a beleza retida nas películas do silêncio. E nada define melhor a poesia que o silêncio. Talvez, a luz!

Claro que a poesia só pode fazer bem, só pode fazer o bem. Alguém já disse que a “beleza salvará o mundo”, e a poesia pode ser compreendida como a metáfora da beleza, a epifania dos objetos, o paradigma do paraíso, principalmente se esta poesia se transmutar na clareira do poema, para além das letras e das canções. Um poema que tenha a música silenciosa e interna como vértebra lapidar de seu organismo verbal, sólido e concreto como a perfeição de um ovo, flexível e aberto como o fluxo de uma sinfonia.

Adriana não disse isto, e disse, pois pensou numa pedagogia do poético e numa poeticidade do mundo, unindo, na mesma esfera existencial, física e metafísica, a palavra e a vida, ao mesmo tempo em que rompe com a bipolaridade dos olhares racionais e as toscas convicções dos maniqueístas. Por isto, em versão de Waly Salomão, “Adriana não gosta do bom gosto! Adriana não gosta do bom senso! Adriana não gosta dos bons modos!”.

Enfim, a poesia, essa poesia que Adriana sorve e respira, essa estranha hesitação entre som e sentido, na expressão de Valéry, só para insistir na poesia do poema, amplia a experiência do mundo, alarga as possibilidades da percepção, alimenta o amor pelas criaturas, ensina o caminho de volta às origens, carrega a senha secreta do futuro e funda o conhecimento do sagrado. E essa poesia está aí, ao alcance de qualquer um, como a água, o fogo, o ar e a terra; carrega a senha secreta do futuro e funda o conhecimento do sagrado. E essa poesia está aí, ao alcance de qualquer um, como a água, o fogo, o ar e a terra; como uma dádiva dos deuses, dos deuses que habitam todas as coisas.

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