João Pessoa, 08 de março de 2026 | --ºC / --ºC
Dólar - Euro


Eu não canto mais no banheiro. Aliás, nunca cantei. Gosto de cantar nas caminhadas, às vezes no centro da cidade, mas canto baixinho, já tem louco demais nas ruas.
Alguém como eu poderia se esconder atrás das cortinas, amarelecidas, imitar Cauby Peixoto, com os últimos pássaros em tons, sei lá, desgostosas cenas, caladas há décadas, mas o mundo é um moinho, e só Cartola sacou. Sim, o moinho que pesava na munheca, no braço da minha mãe, moendo milho para fazer canjica, angu, moendo a vida para desparecer o fim do mundo em que ela vivia.
Vida hibrida, calor da moléstia, lugares que tinham sons por todo parte, mas não era o meu lugar que eu me referia a este lugar lá, lar, no sertão, longe daqui, como um pardieiro, mas a alegria ficava por conta dos discos que chegavam. Nunca esqueci do LP ´Os Novos Baianos´, aquilo era a coisa mais moderna que meus olhos viram, ouviram.
Na verdade, a música é o meu sustento, é o que me deixe em pé, mas eu não sei tocar um instrumento e, aí pensei – (frustração?) – mais que nada, já estou velho e o espaço onde me foi possível ir, isto, o baloiço interior, um resto de consciência, o óxido, a monotonia, o gozo dos momentos iniciais dizem muito de mim.
Já havia perdido de vista a vontade de que meu filho Vítor gostasse de MPB. Ele começou pelo Pink Floyd, depois The Cure, The Smiths e me surpreendeu quando disse gostar de Chet Baker – tinha a esperança que ele gostasse de Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Nina Simone, mas ai seria querer demais.
Dispersos, diversos, dissonantes sons reunindo o que lhe importa. De uns tempos para cá quando vou tomar banho, escuto a voz de Vítor, cantando junto do bolachão ´Transa´ de Caetano Veloso. Eu fico numa felicidade…
Sim, o disco ´Transa´ de 1972, que vi o show no Rio em 2023, 50 anos depois, numa noite tenebrosa na Marina da Glória, de muita chuva. Outro dia percebi que ele estava escutando o disco do show ´Doces Barbaros´, coisa que jamais imaginei.
E porque isso nos salva, meu filho, um rapaz, tem escutado Mílton Nascimento, o pessoal do Clube da Esquina. Também escuta Jorge Ben Jor, Gilberto Gil, Emida – esse ele adora – mas me parece que gosta do Caetano, mas isso não é novidade, não gostar de Caetano Veloso, é estar por fora, a arte dele é agulha num ímã.
Sim, Caetano nos salva.
Apreciamos boas canções. Como escuto música no carro, não tenho mais colocado o cedê para funcionar, termino pegando carona no som que vem do quarto dele.
A música comove-me, quando já não nos apetece tantas coisas, pois, não somos capazes simplesmente de olhar, ouvir ou dançar, os que contam estórias dando tempo para a maré encher, ´quando a maré encher´
Acho que Vítor nunca vai gostar das canções do Roberto, as descrições amorosas de antigos hits do rei na Estrada de Santos, onde tento esquecer, um amor que tive, ´un gatto nel blu´
Vítor avança, ele é o psicólogo da vez, que outros deverão considerar seu talento. Aperta o coração do pai com a música, alegra o coração do pai, um rapaz formado, o que em tempos sinalizam que lhes fora prometido.
Kapetadas
1 – Acordo nuclear, a tal reunião que começa com esperança e termina com epitáfio.
2 – A banda Eva criou uma falsa sensação de que o fim da aventura humana na terra ia ser mais alto-astral. Baubau
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
ELEIÇÕES 2026 - 06/03/2026