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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

“A casa é tudo”

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publicado em 12/08/2020 às 11h26
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Este é o verso que inicia o poema “Pastoral da casa antiga’, de meu livrinho Ofertório dos bens naturais, que faz a transição entre A comarca das pedras e Caligrafia das léguas, constituindo, parece, uma trilogia lírica e telúrica enquanto paisagem natural de uma possível geografia poética.

Quando o escrevi, como muitas coisas que escrevi, nem sabia bem o que estava dizendo. Sou por excelência um poeta meio inconsciente do que faço. Daqueles que não escrevem as palavras, mas as palavras é quem os escrevem. Tanto é assim que, ao me reler tantas vezes, me desconheço e tenho a nítida sensação de que não fui eu que escrevi aquilo. Vejo e não me vejo na medula de meus versos.

Mas nem ouso falar disso. Os teóricos, místicos e iniciados de qualquer natureza que elucidem estas questões impenetráveis. Que investiguem o ouro negro que germina nos reservatórios da criação.

Por enquanto, quero falar, sim, da casa, porque sei: a casa é tudo.

Não fazer uma outra pastoral, porém, como um insólito arquiteto que imaginou seus aposentos, quartos, salas, cozinha, despensa, banheiros, biblioteca, varandas, terraços e quintal, assentar a cerâmica do sonho e da verdade que bafeja na intimidade de cada ambiente.

O covid-19 está lá fora, rondando o meu sossego e estragando o meu silêncio, com suas artilharias invisíveis e sua gosma fulminante, alheio à fragilidade da moral, da ciência e da religião. Está lá como o mal absoluto, indiferente ao sofrimento dos homens e às suas histórias de fé, de amor, de justiça e de paz. Esta lá fora, mas poderia estar cá dentro, disseminando os estilhaços de seu veneno letal. Afinal, o coronavírus é uma guerra, e a guerra, como diz Marques Rebelo, num título primoroso, “está em nós”.

Ele, lá fora, respirando mortalmente as suas vítimas; eu, aqui dentro da casa, tricotando o tecido das horas. Ora, no meu quarto, ora na sala, ora no quintal, ora na biblioteca. Sempre na convicção de que habito um planeta feito de equilíbrio e harmonia. Uma estação memorável a selar um currículo existencial sempre a se refazer na incompletude de seus postulados. Por isto não o temo. Embora saiba de seu poder e da sua crueldade. E a casa, que é tudo, eu sei, me defende e me abriga das dores do mundo.

Aqui no meu quarto encontro os brinquedos da infância, um cavalinho de pau que restou da fazenda, quando suas fibras desmoronaram e apodreceram no martelar dos anos. Daqui ainda escuto o aboio do vaqueiro Zé Padeiro, convocando Turmalina, Neblina e Labirinto para engolir a ração crepuscular dos dias e os bredos da noite, naquilo que a noite possui de delírio e alucinação.

Sim, moro na cidade, mas o campo, especialmente o odor da caatinga e dos marmeleiros não me sai da memória e impregna a solidão das paredes de minha casa, seus detalhes formulados por uma estrutura de fantasia e encantamento.

Na sala, a cadeira de balanço é um alento; o velho cinzeiro de madeira de lei reclama a fumaça do passado; o terraço me lembra o alpendre que abrigava os olhos azuis de meu avô Miné, a suspirar para a terra como se a terra fosse uma sesmaria de milho bonecando e um curral entupido de reses do melhor quilate.

A casa, para mim, tece uma poética do espaço e culmina numa metafísica instantânea, como quer Bachelard. É concreta, mas preserva o elemento inefável do poético. Por isto mesmo, a casa nunca está pronta. A casa se faz no dia a dia de nossa esperança e de nosso cuidado. O jardim e a horta, por exemplo, devem nascer primeiro do estrume do coração. Só assim vão brotar os mitos vegetais e o alimento que alegra o amor e seus derivados.

“Eu sei: a casa é tudo”, reforço lá pelo meio do poema.

A casa é meu mundo resumido no espelho de uma holografia orgânica e protetora. Meu chão de cardumes. Meu país de gnomos. Minha Pasárgada. Meu refúgio. Meu assentamento. Minha fortaleza. O lugar que escolhi para mim, onde meus filhos nasceram e cresceram, antes de se aventurarem pelo mundo. O lugar onde vou morrer, com velório, com lágrimas, com saudade, com alegria. Sem corona. Porque a casa também é o meu antidoto, que se deixa acompanhar pelos unguentos espirituais da rotina e pelos mágicos elementos da poesia. Da poesia que sempre permite a reinvenção da vida.

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