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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Empatia: sem outra palavra – II

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publicado em 28/07/2020 às 06h08
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A segunda frase da citação, da semana passada, diz sobre a empatia: “Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo”. Essa frase parece definir bem melhor. Ou seja, para ser empático, eu preciso compreender os sentimentos de outra pessoa. Nem sempre é fácil. Porque eu tendo a enxergar os acontecimentos, meus ou dos outros, de acordo com os meus valores. Então, para se ter empatia por alguém, é preciso considerar alguns fatores na relação com elas. Olhar as coisas a partir da perspectiva delas e não da minha. Abolir qualquer julgamento. Compreender suas emoções.

Vou dar um exemplo: um colega seu encontra-se em depressão. Diz que nada lhe desperta o interesse. Que se sente sem sentimentos. Que pensou em desaparecer para sempre. E você diz: que é isso, a vida é bela! É uma criação de Deus. Você blasfema, ao falar em tirá-la. Ou seja: você não compreendeu absolutamente nada do que o colega lhe falou. Você desconheceu o que ele disse, julgou-o pelos seus maus sentimentos e não compreendeu o seu sofrimento. Então, façamos um exercício. Você diria, sim, eu entendo o que você está sentindo. A pessoa em depressão, não tem interesse por nada. A depressão tira-lhe a vontade e o desejo, como está acontecendo com você” (Você mudou de perspectiva: escutou o que ele disse a partir dos pensamentos de alguém deprimido como ele, e não de acordo com os seus, que é uma pessoa super positiva e alegre).Você se dispôs a escutá-lo na linguagem dele. Não o julgou. E tentou fazer com que ele entendesse o que se passava consigo. Isso é ser empático. Isso é empatia. Como eu disse antes, uma habilidade poderosa para se comunicar na relação com outra(s) pessoa(s).

Quem escuto mais falar em empatia, são pessoas reclamando de outras que, supostamente, não foram empáticas. No entanto, na grande maioria das vezes, de fato, a questão não era empatia em si, mas falta de alguns sentimentos essenciais a cada um de nós. Outro exemplo: o analista esportivo diz: “O Flamengo poderia pegar o dinheiro que desistiu de receber no Estadual para tentar dar conforto material a quem perdeu o chão espiritual. É uma questão de empatia com aquele que foi, por irresponsabilidade do clube, duramente atingido”. Não! É uma questão de respeito aos direitos das famílias, de lealdade às responsabilidades que tinha com os garotos. E não de empatia.

Uma suposta falta de empatia, pode ser inveja, medo, rejeição, desprezo, vingança, sensação de inferioridade, prazer com a dor do outro, embotamento afetivo, egoísmo. Quando alguém é egoísta e, ao invés de lhe dizer isso, digo que ele não tem empatia, encubro o verdadeiro sentimento com uma palavra que passou a ser repetida sem medida e, igual fake news e outras, daqui a pouco não nos diz mais nada.

A empatia torna sua vida relacional bem mais solidária, e, para alguns profissionais como o médico, é a variável mais importante na sua relação com o paciente. Tomara que vocês tenham entendido, porque já se falou tanto de empatia que me tornei não empático com a palavra. Não sei se fui empático com você que me leu. Mas, tomara que você tenha entendido o conceito de empatia e passe a chamar as coisas pelos nomes certos. Isso é importante porque há outras palavras para designar sentimentos, emoções e atitudes humanísticas ou não. Mas, para capacidade de não julgar, escutar o outro de acordo com a perspectiva dele e compreender seus sentimentos, só há uma palavra: Empatia.

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