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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

E agora, sem Chico

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publicado em 06/01/2026 ás 18h45
José Nunes
Desde quando Chico Pereira fez sua passagem ao mundo desconhecido, busco na memória uma lembrança dos encontros, uma frase, um gesto dele como marca do nosso relacionamento de amigos. Depois de desanuviar da mente a dor de sua partida, construí o perfil dele como sendo um homem bom.
         Não quero ter dele a derradeira imagem retida do ataúde, mas o Chico Pereira das conversas cheias de ensinamentos, da pintura que eternizou os momentos de sua embriaguez mística, da poesia escrita com o pincel. Ele foi o artista das marcas que guardam o passado da nossa cidade e perpetua o tempo presente.
Quero falar de Chico Pereira que conheci nos anos de 1980, época quando raspava no tacho da memória minhas crônicas e poemas escritos em momentos de saudade, e pousava acanhado pelos recantos da cidade respirando cultura.
Nos anos de 1970, com retardo, depois de pitigorar a Biblioteca Pública apipada de livros, visitar exposições de pinturas e escutar conversas nas rodas de cultura, conheci Chico Pereira. Com a calma que era característica, ele apontava caminhos construídos pelas artes e pela palavra. Como sempre fui de observar e escutar conversas mais do que arriscar pitacos, nesses encontros recolhia o sentido da arte como alimento espiritual.
         Ele teve a capacidade de observar as artes como um sonho. E voando em seus sonhos, pintou imagens apontando para o alto, como se ele estivesse alçando voo.
         Sabia observar com atenção uma obra de arte, a penetrar no mundo dos livros, a escutar uma música – música genuína, clássica, armorial, por exemplo – ou uma pintura. Muito nos ensinou a olhar o mundo com os olhos da alma.
         Homem de bom coração, pacífico, não tinha gênio azucrinado.
Sempre apontou caminhos para a contemplação da arte como forma de transformação. Tinha fina sensibilidade, calmo ao extremo, nunca pronunciou palavras ásperas.
Chico provou com seu trabalho de artista que “a arte é uma confissão de que a vida não basta”, segundo Fernando Pessoa. A beleza real está no que observamos para além do que os olhos veem. “O essencial é invisível aos olhos”, escreveu Saint-Exupéry.
         Certa vez, palestrando em nossa Academia, ele à cabeceira da mesa e eu ao lado, recordávamos momentos em que nos encontrávamos na elaboração da Revista para o Conselho Estadual de Cultura, com o registro de tudo o que tinha acontecido na área cultural da Paraíba durante o ano findo. A obra era distribuída na Noite de Cultura, em momento de louvor às artes. A revista tornou-se um valioso documento para estudar os movimentos artísticas da época.
         Chico sempre observava os lugares com o olhar diferente, captava o equilíbrio da vida urbana, mesmo que a Natureza rural ganhasse destaque em sua obra. Na Natureza está o estrato da Poesia, que ele soube observar e extrair com afinação.
         Deixou o registro de sua marca cultural, eternizou a vida pela arte. Explicava tudo com a calma de quem se deixa embriagar pela suavidade das artes. O silêncio das artes era a seiva que mantinha Chico em movimento. Foi assim no decorrer de toda sua existência. Um inquieto artista que transformava os ambientes onde chegava como a brisa fresca do entardecer umedece o campo. Com sua palavra calma e gestos contritos, dava suavidade ao ambiente onde tudo parecia pesado.
         As palavras de seus filhos por ocasião da despedida na Academia Paraibana de Letras deram a dimensão de quanto era amado. Os gestos e as palavras de afeto emocionaram profundamente, fazendo do momento uma louvação à memória de quem cultivou as sementes da arte e do amor. Sentimos como se ele estivesse sendo conduzido pelas asas de anjos imaginários, entre cânticos de louvor e incenso perfumado.
         Durante atuação na missão diaconal procedi com diversas encomendações de corpos, mas nunca presenciei a despedida definitiva de uma pessoa com tamanha e intensa viração de paz.
Como sempre, na última saudação ao falecido, fazemos sua encomendação a Deus, pois os ritos das Exéquias exprimem o caráter pascal da morte cristã, na perspectiva de consolo dos familiares em face da perda (Cor 5,5). Os cantos e orações dão esse sentido de acolhida na eternidade.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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