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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

Você veio!

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publicado em 08/07/2020 às 11h00
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Você não veio, você passava, e a chamei. Você atendeu o meu pedido, e depois disto a minha vida mudou para sempre. O que seria mesmo o para sempre?

Talvez você já estivesse ali, por trás daquela manhã de chuva que lavava a sujeira dos quintais e fazia os pássaros saltitarem nos galhos das baraúnas e das algarobas na fazenda de meus pais.

No curral, pegado à casa velha, o esterco embebido na água nova me trouxe o rude perfume de suas entranhas para arejar os sítios escuros do meu coração. Certamente você acariciava a noite mágica dos animais vagando no pasto e pousava, com suas asas solertes e sagradas, o território invisível dos bichos mais miúdos, insetos, minhocas, formigas e vermes que engordavam a carne seca da terra.

Hoje, passados tantos anos, sei que você respirava o hálito da vida pelo vão iluminado daquela clarabóia, por onde passavam os evangelhos do outro mundo desenhado na tela da imaginação.

Olhava uma estrela luzindo no firmamento, e era você. Inspirava o odor escarlate das boas noites misturado ao sabor da casca dos marmeleiros, e era você. A dor de uma lua desesperada, varando a alquimia dos espaços e espalhando tanta tristeza no mundo, e era você.

Você foi vindo pelas espumas do vento, pela irís indecifrável dos olhos de minha mãe, pelo vigor sem rumo dos cavalos de meu pai, pela areia do sonho que nunca acaba. Faz tempo, você está comigo nas horas mortas e nos minutos vivos que presidem os destinos do desejo e da fantasia.

Sei que você também sofria a inclemência do sol, endurecendo o leito de rios temporários e de riachos sedentos, crestando as migalhas de água nas cacimbas de pedra e nos feridos barreiros, a espiar o cortejo da morte em meio aos suplícios da lavoura desolada.

Em outra época você se vestiu de praças, avenidas, logradouros, becos e bares, me revelando a beleza da fumaça, com seus ritmos sinuosos, e a componente líquida que fabrica o álcool das palavras e o veneno dourado das imagens e da música. Você virou verbo, transformou-se em vocábulos e migrou, de repente, para a eternidade dos livros. Aí descobri sua generosidade, sua sabedoria, sua plenitude.

Outros também desfrutavam de sua insubstituível companhia, e, como “antenas da raça” e visionários empedernidos, descortinavam o lado imperceptível das coisas, captando a sua beleza e a sua dignidade. Profetas do entusiasmo e do espanto, estes amavam e amam você como eu a amo.

Você é água, é ar, é terra, é fogo. Você se refaz e se multiplica na epifania dos elementos, habitando os fonemas e sílabas mais estranhos para, num giroscópio inalterável e surpreendente, trazer o mundo de volta ao nosso coração.

Ainda bem que você me ouviu e a mim se achegou como uma dádiva cósmica, como um bálsamo dos céus, tecido com os fios do mistério e da inocência. Não fora você, nada teria tido sentido, e a minha vida teria sido plana, neutra, opaca e vazia.

Quem é você? Donde você vem? Para aonde você vai? Qual a sua missão? Você é história ou mito?

Ora, Você está em tudo. Você pertence a todos. Ninguém escapa ao seu vocativo, quando a dor ou a felicidade nos retiram da existência ordinária e nos lançam no júbilo e no êxtase dos acontecimentos.

Afinal, qual é o seu nome?

– Poesia.

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