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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

Outras vidas

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publicado em 24/06/2020 às 11h41
atualizado em 24/06/2020 às 09h32
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Numa entrevista com o psicólogo e poeta Hélio Pellegrino, Clarice Lispector, não escondendo suas idiossincrasias, sapeca-lhe a seguinte pergunta: “Você queria ter outras vidas?”. E acrescenta: “Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, em outra eu só amava”.

Hélio pondera e lhe responde na bucha: “Sou um homem de muitos amores – isto é, de muitos interesses – e para tão longos amores, tão curta a vida. Não há ninguém que consiga, no tempo de uma vida, esgotar todas as possibilidades. Se me fossem dadas outras e outras vidas, gostaria de ser: a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação”.

Ah, Quanta beleza e verdade, também sutil ironia, nesta terceira hipótese!

A mim ninguém me perguntou, mas gostaria de responder, como lúdica maneira de passar o domingo pensando exatamente nas gostosuras do impossível.

Não, com Clarice não casaria. Clarice me parece um enigma perfeitamente indecifrável, e, como toda mulher bela e complicada, não se basta a si mesma, sendo si mesma e muitas outras ao mesmo tempo. Clarice não foi feita para o amor dos homens, principalmente para o meu, tão falho na sua bruta e desnuda humanidade. Clarice foi feita, sim, para ser lida e degustada palavra a palavra na sua prosa elevada à máxima potência dos chamados poéticos.

Ser filósofo profissional também não me agrada. Se fosse para filosofar, queria toda uma vida para prosear com Montaigne em outra longa viagem a cavalo pelos interiores da Itália. Em outra vida, era com Nietzsche que gostaria de papear nos longos passeios pelos vastos crepúsculos das florestas alemãs.  Diria a ele dos meus encantos de adolescente perante as páginas luminosas do “Assim falou Zaratustra” e de “O andarilho e sua sombra”.

Sim, como queria outras vidas para poder escrever um romance de verdade, à Thomas Mann, à Robert Musil, à Elias Canetti, à Machado de Assis, à Flaubert, à Tolstoi, à Dostoiévski, a meu amado Zé Lins.  Um romance de mil páginas que, em meio ao drama capilar das perdas amorosas, dos ódios inconfessáveis e das insólitas alegrias que a vida proporciona no vai e vem dos dias e das noites, pudesse recompor, sem pedantismo, os estilhaços da cultura universal, tornando o meu romance uma súmula da história convertida numa miraculosa metáfora literária.

Sim, tivesse outras vidas, para poder gastar todas as possibilidades, reservaria uma para conhecer certos lugares que não existem, lugares mágicos onde, com certeza, eu seria feliz.

Primeiro Pasárgada, que Manuel Bandeira cantou a seu jeito triste e dionisíaco. Lá, só não queria ser amigo do rei, pois detesto reis na mesma proporção que admiro a beleza das rainhas.  Depois, Shangri-la, para escalar o nunca escalado monte Karakal, ou seja, a montanha azul, e do alto de seus 8500 metros de altitude, contemplar a imensa solidão do mundo. Também me acostaria ao reino de Xanadu, para lembrar as histórias de Kubla Khan, habitar cada aposento do pavilhão dos prazeres e explorar os mistérios aquáticos das cavernas de gelo.

Ah, tudo isso só com outras vidas. E só tenho uma, infelizmente já beirando as águas escuras do porto final.

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