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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

Coisas cíclicas

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publicado em 17/06/2020 às 15h30
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O homem moderno, ou pós-moderno, ou pós-tudo, ou pós-humano, como diz meu amigo Francisco Tadeu, referindo um de seus pensadores filosóficos, parece ter perdido o sentido mágico dos rituais das coisas cíclicas. Vivendo as ambivalências da “internet das coisas”, para me valer de uma expressão do livreiro Pedro Herz, procura evadir-se na interconexão das redes sociais, experimentando mais as evanescências do mundo virtual do que os imperativos concretos da realidade, tornando-se, portanto, vítima do stress e das doenças emocionais. Daí o afastamento da prática das coisas cíclicas.

Ora, o que são coisas cíclicas?

Coisas cíclicas são coisas que se repetem dentro da circularidade do tempo. Fogem, assim, ao fio linear do progresso material e às exigências retilíneas da lógica racional e utilitarista. Suas práticas, reiteradas no dia a dia e ao sabor dos utensílios da rotina, a bem dizer, são como que orações espirituais, jogos contemplativos, aquecimentos amorosos, exercícios meditativos ditados mais pelo zelo e gosto de cuidar das coisas do que pelos decretos rígidos da acumulação, da efetividade e da eficiência, indispensáveis ao cerco capitalista.

Digamos que as coisas cíclicas, assim como as coisas poéticas, realizam-se à margem das estratégias do mercado que, por sua vez, tende a transformar tudo em mercadoria, substituindo os ingredientes do valor de uso pelos ácidos do valor de troca. Digamos ainda que as coisas cíclicas, nesta perspectiva, propõem uma lógica do desperdício casada com certos atributos do ócio, mas do ócio criativo, na mesma medida em que convoca, para a esfera de suas manifestações particulares, elementos arquetípicos, simbólicos, lúdicos e estéticos.

Por isto mesmo, penso no poema como o refinamento mais singular no rol dessas coisas cíclicas. Tanto para o poeta que, no ato de sua criação, sempre volta sazonalmente ao seu celeiro de palavras, como para o leitor, que sempre retorna aos campos floridos de seus poemas amados. Compor ou ler poemas – tudo leva a crer – implica na experiência de outros mandamentos, de outras leis, que estão fora do tempo linear e dos limites do princípio de causalidade. Todo poema é eterno retorno.

Mas nos voltemos para as coisas mais triviais, coisas da rotina, da doce banalidade!

Cuidar do jardim, regando as rosas, as dálias, os antúrios e as orquídeas; aparar a grama, sulcar a terra, separar os cactos e apreciar a solidão de sua áspera beleza; limpar as gaiolas dos pássaros de sempre com seus nomes líricos (Dante, Baudelaire, Borges, Augusto, Pessoa, Cesário…) e degustar as sinfonias e os adágios de seus cantos repetitivos; ver e rever o mar, pelo menos uma vez por semana; frequentar feiras livres como se fora um sagrado museu de tudo, deixando o tempo se perder numa conversa anônima com as criaturas anônimas que disputam o milagre do pão de cada dia; prosear com os amigos e fazer dessa prosa a mais gostosa dialética do mútuo aprendizado; comprar livros, ler livros, ler o mundo… Sim, deitar com a mulher que se ama, entregando-se ao fluxo e refluxo dos odores eróticos que brotam do corpo para preencher a alma nesse necessário recomeçar do amor.

Eis alguns exemplos de coisas cíclicas. Coisas da vida. Da vida que precisa ser reinventada como diz Cecília Meireles naquele poema a que sempre estou voltando.

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