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João Medeiros é pediatra e presidente da Academia Paraibana de Medicina. E-mail: j.g.medeirosfilho@gmail.com

Pandemias

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publicado em 28/05/2020 às 11h49
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A pandemia do Covid-19 é certamente a emergência sanitária mais importante e devastadora dos últimos tempos. Desde a infância ouvia falar das grandes epidemias que dizimaram populações – milhões de pessoas ao redor do mundo: – A peste negra ou peste bubônica que abateu cerca de 30 a 60% da população europeia no século XIV. Causada pela Yersínia pestis, e tendo como transmissores, as pulgas, e como hospedeiros, os roedores – que proliferavam nos vilarejos , em face das más condições de higiene -, na fase crítica, a transmissão também ocorria por via aérea, através de gotículas de saliva durante os espirros e acessos de tosse.

Autores acreditam que sua origem é chinesa: o bacilo teria sido inserido no continente europeu pelas caravanas comerciais que aportaram em Gênova e Veneza; – A varíola que ceifou milhões de vidas, até quando Edward Jenner em 1796 descobriu a vacina anti-variólica, permitindo a erradicação do vírus do globo terrestre em 1980, e, por isso foi excluída do calendário vacinal – certamente um dos grandes feitos da humanidade; – A febre amarela que , no início do século passado trouxe grande preocupação ao governo de Rodrigues Alves porque , além da elevada taxa de mortalidade, afugentava os turistas e comerciantes estrangeiros, com sérias repercussões econômicas.

O cientista brasileiro Oswaldo Cruz, adepto da teoria de Juan Carlos Finlay que identificou o Aedes aegypti como vetor, organizou extraordinária campanha de combate ao mosquito, em contraposição ao pensamento da época, enfrentando além de tudo ferrenha oposição da população contra os chamados mata-mosquitos por ele capitaneados.

E venceu brilhantemente; – A gripe espanhola, provocada por uma cepa altamente virulenta do vírus influenza, que provocou a morte de 20-100 milhões de pessoas; – E, mais recentemente, as epidemias de dengue, chikungunya e zica,esta última responsável pela microcefalia em recém-nascidos.

Quando comparamos a letalidade da Covid-19 com a de outras pandemias do passado, até parece que é irrelevante. Certamente não o é! Vivemos num estágio de grande desenvolvimento tecnológico, nos mais diversos campos do conhecimento humano: a conquista espacial, a codificação do genoma humano as vacinas, a robótica, os transplantes de órgãos, os procedimentos minimamente invasivos, a telemedicina e a inteligência artificial, somente para citar alguns.

Países desenvolvidos ostentam taxas de mortalidade infantil baixíssimas. Constrange-nos sobremaneira saber que até o momento já ocorreram pelo menos 352.000 óbitos, e mais de 5,6 milhões de pessoas padecem desse terrível mal, não raro sem que recebam o atendimento adequado. Nosso bem maior, a vida, está seriamente ameaçada.

Por outro lado, não podemos menosprezar as sérias repercussões econômicas que poderão culminar com o caos das nações, sobretudo aquelas mais pobres. É fato que economia e saúde são indissociáveis. A fome e a miséria poderão causar mais vítimas do que o próprio vírus.

Ao contrário de outras pandemias/epidemias citadas, quando o combate ao vetor – o mosquito – como no caso da febre amarela, da dengue, etc.- constitui forma eficiente de controle da doença, na Covid-19 a transmissão se dá entre humanos. É fundamental que se busquem fármacos anti-retrovirais de eficácia cientificamente comprovada e de uma vacina que possa prevenir a doença.

No entanto, as pesquisas demandam um longo período de tempo, e a rápida propagação da pandemia não permite aguardar os resultados. Em condições normais, uma vacina poderá levar anos para ser liberada.

Por outro lado, existe um viés político nefasto a ser considerado , e no meio desse furacão, despontam a cloroquina/hidroxicloroquina defendidas por uns e satanizadas por outros. Um estudo observacional não randomizado com quase 100 mil pacientes evidenciou a ineficácia do medicamento. Existem diversas falhas metodológicas na pesquisa e, além disso, o medicamento foi usado em fases avançadas da doença.

Não pretendo entrar no mérito dessa discussão, mas o que me intriga é o fato de esses fármacos serem usados há cerca de 70 anos na prevenção e no tratamento da malária, da artrite reumatoide juvenil e do lupus e nunca se questionaram seus riscos e efeitos colaterais.

Por fim, discute-se a adoção do isolamento: horizontal, vertical, lockdown ?É evidente que a situação epidemiológica deve ser avaliada em cada município. Na Paraíba, por exemplo, cerca de 40 cidades ainda não registraram casos. Penso que se pode adotar o isolamento vertical, a exemplo de outras cidades, preservando os grupos de risco, e iniciar a liberação paulatina das atividades, de forma responsável, adotando o distanciamento social, o uso obrigatório de máscaras e EPIs para casos específicos, e a obediência às recomendações de higiene.

A quarentena prolongada torna-se insuportável pelas repercussões emocionais – aumento dos índices de violência, suicídios ,etc. -, e econômicas. E enquanto não se dispõe de uma vacina, e torcemos pela sua rápida liberação, ficaremos sujeitos à imunização de rebanho.

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