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Kubitschek Pinheiro – MaisPB
Fotos – Maria Bacelar
Com ´Maracanós´o pianista Ricardo Bacelar chega ao 30º disco, desta vez em parceria com o lendário percussionista Airto Moreira e participação especial da cantora Flora Purim, mulher de Airto O trabalho, que mistura jazz e MPB, segue o single “Aqui, Oh!” lançado em 2025 pelo trio.

Capa do álbum

Multi-instrumentista, compositor e produtor cearense Bacelar já gravou discos com nome de peso nacional, com Jaques Morelenbaum, Leila Pinheiro, Flávio Venturini e outros
A música escolhida para a parceria foi “Aqui, oh!”, de Toninho Horta e Fernando Brant, que ganhou reinterpretação com Ricardo na voz, piano e teclados, Flora na voz e Airto na voz e percussão.
Produzido pelo Jasmin Studio Jasmin Studio, o single conta ainda com a participação dos músicos André Rass (percussão), Stênio Gonçalves (guitarra e violão), Márcio Resende (flauta), Nélio Costa (baixo) e Pantico Rocha (bateria).
Segundo Bacelar, essa é apenas a primeira canção de uma série de colaborações do trio. O encontro entre os artistas renderá, ainda, dois álbuns: um com músicas que narram a trajetória pessoal e profissional do casal, parceria que já dura seis décadas, e um com canções instrumentais inéditas de Airto Moreira, ambos produzidos por Ricardo. Os dois produtos devem ser lançados até o final de 2026.
O multi-instrumentista conta desse encontro entre os artistas aconteceu a partir de um convite do diretor Jom Tob Azulay (Os Doces Bárbaros, Elis & Tom), que trabalha em um filme sobre a vida de Flora e Airto e convidou Ricardo para ser o diretor musical da obra.
Nascidos no Brasil, Flora e Airto moraram por muitos anos nos Estados Unidos, onde fizeram carreira e alcançaram sucesso internacional, gravando com grandes nomes do jazz, como Dizzy Gillespie, Mickey Hart e Miles Davis, entre muitos outros. Atualmente, vivem no Rio de Janeiro.
Leiam a entrevista concedida ao MaisPB, aliás é essa a terceira vez que o artista conversa conosco.
MaisPB – Vamos começar pela capa. O desenho é belíssimo e parece dialogar diretamente com o universo do disco. Como nasceu essa concepção visual?
Ricardo Bacelar – A concepção visual do álbum nasce a partir de um trabalho muito especial do artista plástico Fernando França. As pinturas foram criadas especificamente para este projeto e dialogam com o universo simbólico da Amazônia, trazendo figuras míticas que ele desenvolve com grande sensibilidade. A minha proposta foi justamente provocar uma interseção entre esses mitos amazônicos e as raízes afro-brasileiras, criando uma identidade visual que refletisse a profundidade cultural do disco. O resultado está presente tanto no CD quanto no vinil, com ilustrações internas que ampliam a experiência estética da obra.
MaisPB – Como surgiu a ideia do disco? E “Pé no Chão”, que abre o álbum com tanta força e intensidade, parece já anunciar a energia do projeto.
Ricardo Bacelar – A origem do álbum está diretamente ligada ao filme que produzi com Jom Tob Azulay sobre Airto Moreira e Flora Purim. Após a gravação inicial do projeto deles, tivemos uma segunda oportunidade de estúdio, quando Airto retornou ao Jasmim acompanhado de Flora. Foi nesse contexto que este disco começou a se desenhar de forma muito orgânica.
“Pé no Chão” é um baião acelerado, com uma energia muito direta, quase visceral. A faixa conta com um arranjo de cordas refinado de Liduíno Pitombeira, que trouxe uma dimensão sofisticada à música, equilibrando força rítmica e elaboração harmônica.
MaisPB – “Voo da Tarde” tem uma atmosfera muito imagética, quase cinematográfica. Como nasceu essa faixa?
Ricardo Bacelar – “Voo da Tarde” parte justamente de uma ideia imagética. A música começa com a sensação de deslocamento, como se o ouvinte estivesse entrando em um voo, atravessando paisagens sonoras. Existe ali uma dimensão contemplativa e ao mesmo tempo muito aberta à improvisação. A participação de Flora Purim aconteceu de maneira muito natural, porque ela estava conosco durante as gravações e acabou entrando organicamente nesse universo da faixa. Em breve ela também ganhará um videoclipe.
MaisPB – “Três Minutos de Paz” impressiona pela atmosfera quase espiritual. As vozes parecem preencher todo o espaço da música. Como foi construída essa faixa?
Ricardo Bacelar – “Três Minutos de Paz” nasce de uma improvisação livre. Airto Moreira explora a voz como instrumento, enquanto eu trabalho o piano, posteriormente expandido com sintetizadores e texturas eletrônicas. A intenção era criar um ambiente imersivo, com silêncio, espaço e liberdade, quase como uma experiência sensorial. Existe uma busca muito grande por respiração e contemplação nessa faixa.
MaisPB – “O Pau Rolou” talvez seja uma das faixas mais brasileiras do disco. Há algo muito nordestino na atmosfera, nas vozes, no berimbau e nas imagens que a música cria. Como vocês chegaram a esse resultado?
Ricardo Bacelar – “O Pau Rolou” traz uma raiz nordestina muito forte. Gravamos cantando juntos, quase como uma cena, uma narrativa sonora, como se estivéssemos na mata em um momento de convivência, entre pesca, percussão e diálogo. Há um aspecto lúdico e, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro nessa faixa. O berimbau e os elementos percussivos ajudam a construir essa sensação quase ritualística.
MaisPB – E falar de “Maracanós” é inevitavelmente falar de Airto Moreira. Ele continua surpreendendo pela liberdade criativa e pela força musical. Como foi dividir esse processo com ele?
Ricardo Bacelar – Trabalhar com Airto é uma experiência singular. Ele é um criador absolutamente livre, com uma escuta impressionante. Existe uma conexão muito forte entre nós. Ele antecipa, reage e constrói junto em tempo real. É um músico com um repertório sonoro vastíssimo e uma sensibilidade rara. Sem dúvida, um dos grandes nomes da música brasileira.
MaisPB – Você mantém uma produção intensa e parece sempre mergulhado em novos projetos. De onde vem essa relação tão profunda com a música?
Ricardo Bacelar – No meu caso, o trabalho é movido por um envolvimento profundo com a música. Cada álbum representa uma história própria, um universo específico. Eu valorizo muito o processo, não apenas a gravação em si, mas também a convivência. No Jasmin, costumo receber os artistas em casa. Temos um espaço integrado ao estúdio, o que permite uma imersão completa. As refeições, as conversas e o tempo compartilhado influenciam diretamente o resultado artístico. É dessa troca humana que surgem as melhores conexões e, consequentemente, a música ganha verdade e profundidade.
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