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CULTURA

Banda Punho de Mahin, afro punk, lança segundo álbum enfurecido e contundente

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publicado em 04/04/2026 ás 12h00
atualizado em 04/04/2026 ás 13h43

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos -Daniel Arantes

O mundo do rock nacional aplaude a potente banda paulista Punho de Mahin, com seu punk/hardcore furioso engajado numa linguagem contundente. Fundada em 2018, a Punho de Mahin é um dos principais nomes do afro punk no Brasil, com uma proposta artística e política que revisita uma temática frequentemente negligenciada na cena punk e underground: a experiência negra na sociedade contemporânea. O nome da banda faz memória a Luísa Mahin, que teria sido uma princesa africana

A banda formada em 2018 em São Paulo, é composta por Natália Matos (vocal/percussão), Camila Araújo (guitarra), Du Costa (baixo) e Paulo Tertuliano (bateria). O grupo, conhecido por letras antirracistas e de resistência, foi formado por músicos negros e periféricos.

Temas como protagonismo negro, racismo estrutural, machismo, intolerância e violência policial ganham forma em uma sonoridade crua em “Entre a Penitência e a Ruptura”, segundo álbum de estúdio da banda. O disco está nas plataformas digitais, pela gravadora Deck, com produção musical assinada por Clemente Nascimento, fundador dos ´Inocentes´.

Capa do álbum

Na primeira parte do álbum, até a sexta faixa, o contexto da “penitência” é abordado sob perspectivas histórica e atual, refletindo o legado da colonização e da espoliação. O disco expõe um projeto estrutural de opressão, questiona o mito da meritocracia e atravessa processos de exclusão sociais associadas a uma estrutura urbana precária. É pau, é pedra.

A segunda parte, marcada pela “ruptura”, mostra a força gerada pela resistência diante dos impasses. A articulação e a ancestralidade conduzem à insurreição, resgatando a potência de mulheres apagadas pela história e destacando o embate feminino atual pela permanência plena, especialmente em espaços considerados libertários.

O lançamento chega acompanhado de um clipe do single “Meritomentira”, disponível no canal oficial da Punho de Mahin no Youtube.

O MaisPB conversou com Paulo Tertuliano, baterista da banda e traz mais detalhes desse trabalho, que é de cara uma ruptura geral

MaisPB – Vamos começar pelo videoclipe do single “Meritomentira”, que mistura tudo num só caldeirão – bora falar dessa arte?

Paulo Tertuliano – O clipe foi elaborado por várias mãos, com pesquisa e produção de imagem por Gabriela Monnerat, Junae Andreazza, Rodrigo Amim e Punho de Mahin, e edição de Gabriela Monnerat, Junae Andreazza e Rodrigo Amim, o projeto propõe uma reflexão sobre o acúmulo de riquezas. O foco recai sobre itens que, frequentemente, são inalcançáveis para a grande massa da população trabalhadora.

MaisPB – Violação é um single incrível, o som invade paredes e a voz do pequeno discurso acalma, mas logo vem um som pesado. Legal, vamos falar sobre essa canção e a denúncia das mulheres negras, uma praga sem fim?

Paulo Tertuliano – Esta canção é mais uma denúncia sobre o abandono sistêmico de mulheres, realidade que se torna ainda mais evidente no sistema carcerário. Relatos demonstram que muitos homens abandonam suas companheiras em momentos de vulnerabilidade: quando envelhecem, quando alcançam maior autonomia financeira ou, principalmente, quando adoecem. Enquanto o cuidado é socialmente delegado à mulher desde a infância — simbolizado pelo ‘brincar de casinha’ —, os homens raramente se dispõem a exercê-lo. O contraste é visível nas portas das penitenciárias: enquanto as filas das unidades masculinas são extensas e compostas majoritariamente por mães, filhas e esposas, quem encontramos na porta de uma unidade feminina?

Mulheres cuidam de outras mulheres; homens esperam ser cuidados!
Imagine como funciona para essas mulheres com liberdade privada?

MaisPB – A faixa Marcus Vinícius da Maré é outra denúncia, cujo tema, título, dá um soco no aparato de segurança pública, as ações do racismo estrutural e do genocídio planejado e implantado ao longo dos anos. A música é uma reflexão sobre a ameaça institucional. Bora trocar em miúdos?

Paulo Tertuliano – Essa música é sentida na derme a cada estrofe cantada. Pois remete aquela lembrança: “Mãe, eles não me viram com roupa de escola?” É uma tristeza sem fim pensar que diversas crianças, igualmente o Marcus, foram assassinadas pela PM. Que o aparato do Estado é cruel, inclusive, para quem deveria nos proteger.

MaisPB – A canção 13 de Maio, me fez lembrar da cova da iria, mas vai além, já que a sacada expõe a abolição de maneira errônea. Conta pra gente dessa canção?

Paulo Tertuliano – Sinceramente, não vejo semelhanças entre as composições para além da referência à data histórica. A nossa ’13 de maio’ foi composta entre 2017 e 2018, em um período de transição marcante para a Natália: ela havia acabado de deixar a banda Condenados — onde foi vocalista por uma década — e estava imersa no universo da capoeira e de saraus de temática preta. A canção nasceu da urgência de declamar suas próprias vivências e de ampliar o debate sobre a identidade negra, questionando a narrativa oficial da abolição. Para completar a potência dessa faixa, convidamos o Contra-Mestre Messias, que era professor da Natália na época; ele toca o berimbau e canta a ladainha ‘Quem foi que disse?’.

MaisPB – Como resolveram botar a banda Punho de Mahin na rua?

Paulo Tertuliano – Camila e Natália já eram amigas e dividiam o palco com suas outras bandas (Bandido da Luz Vermelha e Condenados) quando, em 2018, decidiram montar um novo projeto para voltar aos palcos punks. Em novembro de 2018, o grupo se consolidou e o diferencial ficou claro: eram quatro pessoas pretas ocupando a cena

MaisPB – Vão sair tocando pelo Brasil?

Paulo Tertuliano – Sim, temos shows programados para Goiás e Rio Grande do Sul. Estamos aqui ansiosos para os produtores do Nordeste nos convidarem pra tocar por lá.

MaisPB – Os homens estão matando muito, mas muito mesmo, as mulheres. Teremos esperança, teremos paz, liberdade?

Paulo Tertuliano – O domínio sobre os corpos femininos não é um fenômeno recente; é estrutural. Historicamente, a existência da mulher foi podada por restrições legais e sociais: desde a proibição do voto e do trabalho externo até o controle sobre o vestuário e o uso de anticoncepcionais. A antiga “legítima defesa da honra” é o exemplo máximo de como o sistema validava o controle masculino sobre a vida das mulheres.

Mais PB – Tem aumentado muito o feminicídio no Brasil. Vamos fechar com esse tema?

Paulo Tertuliano – O aumento no número de feminicídios reflete uma dualidade. Por um lado, há mais coragem para denunciar e mais tecnologia (câmeras e registros) para expor crimes que antes ocorriam nas sombras. Por outro lado, essa violência não atinge todas da mesma forma: os corpos das mulheres negras são exorbitantemente mais violados, evidenciando que o racismo potencializa o machismo. A esperança reside na base: a família. Se o machismo, a homofobia e o racismo são aprendidos em casa, o respeito às diferenças e às escolhas também deve ser. A escola e o convívio social apenas agregam valores a uma postura que nasce no ambiente familiar. Sem uma mudança na criação dos filhos homens, o ciclo de violência se perpetua. No entanto, a esperança é testada pela ascensão de movimentos reacionários e ideologias que reforçam a misoginia (como os grupos “Redpill”, “Legendários” e vertentes extremistas). Atualmente, a liberdade feminina ainda é condicionada: as mulheres precisam modificar seu próprio direito de “ir e vir” e vigiar seus passos constantemente apenas para garantirem o direito básico de permanecerem vivas.

Assista aqui o videoclipe de Meritomentira

MaisPB