João Pessoa, 05 de abril de 2026 | --ºC / --ºC
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Fui bater em Ingá, para rever a Pedra, trinta anos depois. Dessa vez, a estrada me pareceu longe – a última vez que fomos lá, foi com o cineasta Torquato Joel, que me chamou para declamar umas falas, um poema, para um curta, e não me lembro de quase nada: eu estava de preto e ele com uma câmara na mão. A pedra vivia o tempo da “modernidade”.
A Pedra de Ingá não tem mais aquela visibilidade, as inscrições rupestres, os signos se apagando, mas agora tem um cercado, e ninguém mais sabe onde canta o Sabiá, só Seu Vavá da Luz, que fala pelos cotovelos e é a permanência da cultura daquele lugar. Vavá cuida da pedra e do museu.
Bem antes, se falava que ao conhecer as riquezas arqueológicas da ´Pedra do Ingá´ aprenderíamos a valorizar, a cuidar e preservar. A Paraíba e seus problemas. Mas isso foi antes
As inscrições rupestres possuíam uma excepcionalidade, chamava a atenção, tanto em relação à sua forma e imagens utilizadas, quanto à sua complexidade e execução de sua vasta petrografia. O som da água do Rio Ingá, que corta o sítio arqueológico, lembra uma seresta, um espelho, sem Narciso por perto, – um som que parece um riacho sangrando.
Na praça Antenor Navarro, centro de Ingá, cercada pelo coreto, igrejas, e botecos, ninguém, sequer nas casas, ninguém quis falar sobre a situação da pedra, alguns até disseram que é o tempo, “com o tempo tudo se acaba, senhor”
Os casarões de Ingá aumentam a sensação, a glória de lugares por onde passei. Na verdade, somos proteicos, mas não abdicamos das ilusões que nos rodeiam. Paramos para um café e esqueci que traçava ali o apanhar de nenhuma tristeza, demasiado ventre que pariu a Pedra de Ingá, e esqueceu do velho cartão-postal
Na estrada, ouvíamos Jim Harrison adorável monstro que nenhuma armadilha apanhou. Tudo verde, nada azul. Da janela do carro, a 100 por hora, os arvoredos se deixavam se ver, apesar da guerra contra tudo e todos, as árvores resistem cada vez mais distantes uma das outras.
Jim Harrison saiu, culpa da frequência do Spotify. Veio o rádio, que ainda se amplia junto ao múltiplo desejo de ouvir canções, o noticiário jamais. Por incrível que não pareça, a sintonia foi bater numa rádio chamada Senado. Tá ligado?
Atravessarmos lugarejos no movimento da voz de Cássia Eller, que cantava que tava com um cara que carimba postais e que por descuido abriu a carta que voltou. Seguimos.
Depois veio Vandré, cantando ´Se a tristeza chegar´ e já estávamos na estrada que passa pelo cemitério de carros, das profundezas de um tempo sem códigos. Os versos do Vandré parecem uma alerta: “De só trabalhar (e trabalhar), Pra depois dormir (depois acordar), E trabalhar (só trabalhar), Se você quiser, se você lembrar”
Eu não quero esquecer da Pedra de Ingá. Quando me perguntarem e ninguém vai querer saber sobre a pedra, eu nem vou lembrar que escrevi sobre seus desenhos desbotados, questionando o desgosto sobre um movimento na escrita da natureza, que até hoje ninguém decifrou ou foi devorado.
Sim. Ninguém estava lá para tirar um selfie na pedra, ainda bem.
Kapetadas
1 – O amor não, mas o plástico é para sempre.
2 – O idiota completo, desde que bem embalado, vira gênio da raça.
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