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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Pedra de responsa

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publicado em 05/04/2026 ás 00h00
atualizado em 04/04/2026 ás 20h46

Fui bater em Ingá, para rever a Pedra, trinta anos depois. Dessa vez, a estrada me pareceu longe – a última vez que fomos lá, foi com o cineasta Torquato Joel, que me chamou para declamar umas falas, um poema, para um curta, e não me lembro de quase nada: eu estava de preto e ele com uma câmara na mão. A pedra vivia o tempo da “modernidade”.

A Pedra de Ingá não tem mais aquela visibilidade, as inscrições rupestres, os signos se apagando, mas agora tem um cercado, e ninguém mais sabe onde canta o Sabiá, só Seu Vavá da Luz, que fala pelos cotovelos e é a permanência da cultura daquele lugar. Vavá cuida da pedra e do museu.

Bem antes, se falava que ao conhecer as riquezas arqueológicas da ´Pedra do Ingá´ aprenderíamos a valorizar, a cuidar e preservar. A Paraíba e seus problemas. Mas isso foi antes

As inscrições rupestres possuíam uma excepcionalidade, chamava a atenção, tanto em relação à sua forma e imagens utilizadas, quanto à sua complexidade e execução de sua vasta petrografia. O som da água do Rio Ingá, que corta o sítio arqueológico, lembra uma seresta, um espelho, sem Narciso por perto, – um som que parece um riacho sangrando.

Na praça Antenor Navarro, centro de Ingá, cercada pelo coreto, igrejas, e botecos, ninguém, sequer nas casas, ninguém quis falar sobre a situação da pedra, alguns até disseram que é o tempo, “com o tempo tudo se acaba, senhor”

Os casarões de Ingá aumentam a sensação, a glória de lugares por onde passei. Na verdade, somos proteicos, mas não abdicamos das ilusões que nos rodeiam.  Paramos para um café e esqueci que traçava ali o apanhar de nenhuma tristeza, demasiado ventre que pariu a Pedra de Ingá, e esqueceu do velho cartão-postal

Na estrada, ouvíamos Jim Harrison adorável monstro que nenhuma armadilha apanhou. Tudo verde, nada azul. Da janela do carro, a 100 por hora, os arvoredos se deixavam se ver, apesar da guerra contra tudo e todos,  as árvores resistem cada vez mais distantes uma das outras.

Jim Harrison saiu, culpa da frequência do Spotify. Veio o rádio, que ainda se amplia junto ao múltiplo desejo de ouvir canções, o noticiário jamais. Por incrível que não pareça, a sintonia foi bater numa rádio chamada Senado. Tá ligado?

Atravessarmos lugarejos no movimento da voz de Cássia Eller, que cantava que tava com um cara que carimba postais e que por descuido abriu a carta que voltou. Seguimos.

Depois veio Vandré, cantando ´Se a tristeza chegar´ e já estávamos na estrada que passa pelo cemitério de carros, das profundezas de um tempo sem códigos. Os versos do Vandré parecem uma alerta: “De só trabalhar (e trabalhar), Pra depois dormir (depois acordar), E trabalhar (só trabalhar), Se você quiser, se você lembrar”

Eu não quero esquecer da Pedra de Ingá. Quando me perguntarem e ninguém vai querer saber sobre a pedra, eu nem vou lembrar que escrevi sobre seus desenhos desbotados, questionando o desgosto sobre um movimento na escrita da natureza, que até hoje ninguém decifrou ou foi devorado.

Sim. Ninguém estava lá para tirar um selfie na pedra, ainda bem.

Kapetadas

1 – O amor não, mas o plástico é para sempre.

2 – O idiota completo, desde que bem embalado, vira gênio da raça.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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