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Hildeberto Barbosa Filho
Também gosto de juntar as coisas. Vejo, nelas, sinais de um estranho idioma que me fala do silêncio, do repouso, da autonomia, da solidão, da beleza. Burrinhos de barro, cavalos de cerâmica, boizinhos de vidro ou de madrepérola ocupam diversos lugares nos corredores de minha casa. Principalmente, nas vagas entre os livros que formam o acervo informe de minha amada biblioteca.
Dizem os sábios que a reunião desses objetos múltiplos constituem a magia interior de um suposto “gabinete de curiosidades” ou de um específico “museu imaginário”. Pois bem: penso que cultivo, a meu modo, a secreta alegria de possuir e organizar essas coisinhas miúdas que me agradam os olhos e me alimentam a alma.
Diria, portanto, que a minha biblioteca, como a de tantos autores, bibliófilos, pesquisadores, pode ser concebida, não somente como a geografia dos livros, mas também como um arquivo singular de pequenos artefatos, divididos entre o calor da inutilidade e os requisitos da beleza.
Não sei se existe alguma conexão semântica entre as pedras que trouxe das margens do Sena e o desespero de Madame Bovary, pois, na estante dos franceses, há uma fileira delas como que pontuando as situações existenciais que o código literário nos oferta, a título de lições de prazer ou como o prazer de uma didática insuperável.
Entre Herman Hesse, Thomas Mann e Goethe, fiz questão de distribuir pedaços arenosos do Muro de Berlim, (foto) duas ou três miniaturas de garrafas de cerveja, uma estatueta de Marx que comprei numa tarde de domingo numa feira de praça, acossado por 4 graus abaixo de zero. A essa época, a Alemanha já reunida!
Não sei se existe alguma lógica implícita nessa mania saborosa de juntar coisinhas dispersas, colocando-as nas estantes a confabular com os livros numa sintaxe que pressupõe, como diria São Tomás de Aquino, integridade, simetria e claridade. Ou seja, as prerrogativas do que se quer perfeito e ao mesmo tempo inútil.
Como amo as pedras mais que tudo, certamente porque elas me moldaram os fios do destino e sacralizam a paisagem de origem, procuro dispô-las em cada recanto que me apetece. Tenho pedrinhas da Holanda, seixos de Londres e muitos exemplares de todas as regiões. Minha pedra em forma de peixe, uma das preferidas, me veio da Lagoa de Cuité (PB), assim como me veio da Gruta de Angico (SE), um raro granito que decerto testemunhou a tragédia da morte de Lampião.
Tenho pedras do Canadá, da África do Sul, do Colorado, da Austrália, da Sibéria e muitas advindas do meu reino encantado, o Sarafim, a registrarem os pastos inesquecíveis de minha infância em meio ao gado, aos marmeleiros e ao vento.
Não só pedras, mas santinhos de madeira, frasquinhos de perfume, óculos antigos, casinhas de lata, carrinhos de baquelite, chapeuzinhos de couro, chaveiros, canivetes, faquinhas de ponta e muitos bonecos de gesso com efígies de notáveis, como Nietzsche, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Dante Alighiere e tantos mais. Destaco, aqui, a belezura de imagem de Clarice Lispector, com seu jeito enigmático e sedutor qual uma cactácea que ninguém doma nem decifra.
Quero crer que essa mistura de livros e coisas promove um diálogo para lá de socrático. Livros também são coisas. Coisas também são livros. Estas, porque, em certo sentido, nos ensinam, nos educam, nos alargam a imaginação. Aqueles, porque, além das palavras, dos enredos, dos personagens, das ideias e dos conceitos, têm textura, materialidade, figuração, peso e medida.
Dá gosto acomodar-se na poltrona e espiar, sem pressa, o copinho de plástico com a flâmula do Flamengo, dividindo o cronicário de José Lins do Rego com o de Nelson Rodrigues. Melhor ainda, no entanto, é conferir, nos mínimos detalhes, a inexplicável relação que se estabelece entre as pequeninas corujas de metal e toda a bibliografia mitológica e esotérica que adquiri ao longo dos anos, na sempre renovada obsessão de um louco colecionador. Desarvorado e sem cura!
Enfim, o melhor desse “gabinete de curiosidades” em que se transformou a minha biblioteca, é reter o infinito dentro do finito e provar que somos mais que uma grafia fisiológica ou um animal triste.
(Em tempo: esta crônica é para Bruno Gaudêncio, que me deu o mote!)
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COPA DO NORDESTE - 29/03/2026