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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

Escultores da palavra   

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publicado em 10/03/2026 ás 20h18
 
         José Nunes
O escritor é um caçador de palavras. Suponho que a busca da perfeição da escrita é a meta do escritor. Se a escrita perpetua o pensamento, registra os momentos observados, nisso consiste a sua importância para se buscar palavras que deem perfeição ao texto. Ao escritor cabe construir caminhos para o leitor passar e entender o que está sendo descrito. Sem embaraço.
A escolha das palavras é o grande ministério no ato de escrever.
Essa perfeição atormentava Flaubert, escritor francês que produziu romances referenciais na literatura universal do século 19, como Madame Bovary. Esteta da palavra, ele buscava o texto solto e leve, mesmo que os seus passos fossem lentos na escolha dos vocábulos.
         Alguns estudiosos já falaram sobre esse assunto, e nada acrescentaria não fosse a certeza de que escrever é uma das mais belas artes.
Muitos têm seu modo de buscar o melhor texto. Graciliano Ramos usava o método das lavadeiras de roupa do seu sertão. Sem demérito das mulheres sertanejas do tempo do escritor, no Brejo muitas alvejam roupas de modo sublimar. Estas lavam, enxaguam, tornam a lavar, deixam no quarador. Ensaboam novamente e, então, botam para secar.
Com relação a produção do texto, seguimos esse roteiro do escritor de Alagoas? Mesmo que escrever seja uma luta inglória, devemos seguir os caminhos do autor de Vidas Seca. O escritor francês Buffon dizia que “as obras bem escritas serão as únicas que passarão à posterioridade”.
Os entendidos aconselham limpar o excesso de palavras no texto. Juntar as palavras como o pedreiro que coloca o tijolo para construir a parede que, no final da construção, tem uma obra de valor inestimável.
Nos meus primeiros passos como repórter, Agnaldo Almeida orientava os iniciados na redação a reescrever o texto quantas vezes for necessário para atingir a clareza. Recomendava a leitura de Flaubert, mestre da escrita enxuta, para depurar o estilo.
O poeta gaúcho Carlos Nejar sempre defendeu que a luta contra o excesso de palavras começasse pela depuração verbal. Recomendava usar a palavra como a pedra na construção.
“Essa luta não é para abolir as palavras, mas para melhor ajustá-las”, escreveu no seu Caderno de Fogo – Ensaios sobre poesia e ficção. Essa citação me chamou a atenção.
Antes, quando não existia o Cosmos, tudo se formou porque Deus existia. Pela Palavra tudo se originou. A Palavra se fez carne e habitou entre nós, na pessoa de Jesus Cristo, para que conhecêssemos a Palavra que tudo criou.
A palavra constrói a pátria. Foi com a Palavra que Camões e Fernando Pessoa construíram a Pátria Portugal. Foi pela palavra que Machado de Assis, que Guimarães Rosa, que Graciliano Ramos, que Augusto dos Anjos ajudaram na construção do nosso País.
Estes autores emolduraram a pátria com o uso da palavra, fizeram o Brasil existir. A partir destes autores e alguns outros, como José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e José de Alencar, tem sido possível construir a identidade de nosso País.
O poeta Nejar lembrou que a Simone Weil relatava que o povo da Região D’Oc, na Idade Média, tinha uma palavra para designar a pátria: linguagem.
Estes escultores da palavra, a exemplo de Luiz de Camões que criou um mundo habitável, com Os Lusíadas. Esse mundo da imaginação que brotou da mente de Homero, de Dante, de Cervantes, de Shakespeare, de Victor Hugo.
No uso correto das palavras, o escritor poderá imortalizar a beleza da natureza e do homem, mostrar como são as maravilhas do universo, “a sacralidade da vida e do ser humano”, como observou o Papa João Paulo II.
Escrever é ter paciência, exige persistência. No ato de escrever, a pessoa deve ser um teimoso. Selecionar as palavras como quem cata grãos no terreiro. Escrever com a alma, como se estivesse fazendo “um balancete de sua vida”, na expressão de Santo Agostinho em Confissões, seu livro de memórias.
Já se falou que escrever fácil é difícil. Talvez seja difícil encontrar as palavras exatas para descrever com precisão aquilo imaginado. Somente com leitura é possível caminhar pelos aceiros das palavras.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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