João Pessoa, 05 de março de 2026 | --ºC / --ºC
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Nunca se falou tanto em valores.
E, curiosamente, nunca foi tão difícil encontrá-los.
Vivemos cercados de discursos corretos. Onde estão os politiocamente incorretos?
Frases prontas. Repetiodas, chavões.
Posicionamentos firmes.
Causas defendidas com intensidade quase religiosa. Uau!
Mas há algo que não encaixa, aliás muiota coisa não encaixa.
As palavras estão no lugar certo
mas a vida… não acompanha.
Defende-se justiça em público
e pratica-se dureza no privado.
Clama-se por empatia
enquanto se escolhe quem merece ser compreendido e nada mais.
Fala-se de Deus com convicção
e de pessoas com indiferença. Deus é Pai.
Ergue-se a voz contra o erro
desde que o erro não seja o próprio.
É um tempo curioso.
As pessoas não querem mais apenas ser
querem ser vistas sendo o que não são.
E isso muda tudo.
Porque quando a aparência ocupa o lugar da essência,
o certo deixa de ser um compromisso
e passa a ser uma construção.
Algo moldável.
Adaptável.
Conveniente.
Não é mais sobre verdade.
É sobre narrativa.
Não é mais sobre coerência.
É sobre aceitação.
E, silenciosamente, vamos aprendendo a ajustar o discurso
de acordo com o público,
o ambiente,
a vantagem. Te dana!
Há quem fale de fé como quem constrói imagem.
Há quem fale de política como quem escolhe um time.
Há quem fale de amor como quem negocia afeto.
Tudo parece certo
até que se olhe de perto.
Porque de perto como diz Caetano Veloso, “ninguém é normal”
a fé não sustenta o caráter.
A opinião não sustenta a atitude.
E o discurso… não sustenta a própria verdade.
Mas sustenta a aparência.
E, para muitos, isso basta.
Criamos uma espécie de vitrine moral,
onde tudo precisa estar alinhado, bonito, aceitável.
Mas vitrines não revelam profundidade.
Revelam superfície.
E superfície não sustenta ninguém por muito tempo.
Enquanto isso, o mundo real segue
com dores que não cabem em frases,
com conflitos que não se resolvem em posicionamentos rápidos,
com pessoas que não são personagens
mas são tratadas como se fossem.
E talvez o mais inquietante de tudo
seja perceber que não estamos apenas assistindo.
Estamos participando.
Reproduzindo.
Compartilhando.
Validando.
Porque é mais fácil repetir
do que refletir.
Mais confortável pertencer
do que questionar.
Mais seguro parecer certo
do que encarar a própria incoerência.
Mas há um preço.
E ele não aparece de imediato.
Ele surge no vazio das relações rasas.
Na fragilidade das convicções.
Na facilidade com que tudo muda
quando a conveniência chama mais alto.
Porque o que não é verdadeiro
não permanece —
apenas se sustenta enquanto é útil.
Talvez por isso tanta coisa hoje
pareça forte…
mas desmorone tão rápido.
No fim, não se trata de religião.
Nem de política.
Nem de certo ou errado.
Trata-se de alinhamento.
Entre o que se diz
e o que se vive.
Entre o que se mostra
e o que se é.
Porque sem isso,
qualquer valor vira discurso.
Qualquer causa vira fachada.
Qualquer verdade vira versão.
E o mais perigoso não é quando alguém engana os outros.
É quando já não percebe
que também está enganando a si.
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