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João Pedro Gomes – MaisPB
Dos campos de terra em Mogeiro, no interior, para os grandes estádios da Alemanha. O sonho de quase todo garoto brasileiro é ser jogador de futebol, mas poucos conseguem transformar a imaginação da infância em realidade. Ailton Gonçalves da Silva foi um deles.
Nascido na Paraíba, Ailton acumulou artilharias e muitos títulos relevantes, incluindo o prêmio de Melhor Jogador do Campeonato Alemão de 2004.
Conhecido como o “Príncipe de Mogeiro”, o ex-atacante relembrou a infância na cidade, o início da carreira fora da Paraíba, o auge no futebol alemão e a frustração por nunca ter vestido a camisa da Seleção Brasileira.
Em entrevista ao programa Paraibano em Campo, Ailton, apelidado de Kugelblitz (“raio”, em alemão), ainda falou sobre seus principais feitos no futebol europeu, lembrou sua passagem pelo Campinense e destacou possíveis investimentos na Paraíba.
Veja entrevista completa:
Início da Carreira
Criado em Mogeiro, Ailton contou que o futebol surgiu naturalmente como principal diversão. Filho de agricultor e enfermeira, dividia o tempo entre as tarefas em casa e as “peladas” com amigos da escola e vizinhos.
“Eu jogava futebol com meus amigos da escola. Às vezes, com o meu vizinho, a gente também brincava. Meu pai, na época, era agricultor, minha mãe, enfermeira. Meu pai trabalhou bastante na vida do campo. E meu pai sempre dizia que, no caso eu, tinha que ficar em casa para cuidar um pouco das coisas de casa e ficar com a minha mãe. E quando eu fazia minhas atividades em casa, me sobrava bastante tempo. Então, eu procurava sempre estar com a bola e jogar futebol”, disse Ailton.
A carreira profissional, no entanto, começou fora da Paraíba. Em um período em que a tecnologia e a presença de olheiros eram escassas no interior do país, a visibilidade vinha apenas por meio de campeonatos municipais e regionais.
O primeiro convite surgiu por intermédio do irmão mais velho, Deraldo Gonçalves, que já era jogador profissional, com passagens por clubes da Paraíba, e o levou para um teste no Estudantes de Timbaúba, em Pernambuco.
“O treinador, na época, viu em mim uma qualidade que eu poderia chegar mais longe como jogador de futebol. E depois de muita insistência por parte da minha mãe e do meu irmão, eu acabei ficando e joguei somente um ano, se não me engano, joguei um ano no Estudante de Timbaúba. E logo fui transferido para o Mogi Mirim, em São Paulo”, lembrou.
Artilheiro e revelação
Depois do Estudantes, Ailton passou pelo Mogi Mirim, o “Carrossel Caipira”, que contava com o atacante Rivaldo, antes de ganhar projeção nacional no Ypiranga de Erechim.
Em 1995, foi artilheiro e revelação do Campeonato Gaúcho, desempenho que o levou ao Internacional, onde disputou o Brasileirão ao lado de nomes como Gamarra, Goicochea e Branco.
Sem sequência no Inter, foi emprestado ao Santa Cruz e, posteriormente, ao Guarani, clube onde viveu o melhor momento de sua carreira no Brasil. No Brasileirão de 1996, terminou entre os principais artilheiros da competição e chegou a ser cogitado para a Seleção Brasileira, além de convocado para a Seleção Paulista.

Ailton pelo Guarani
“Se não me engano, eu fui terceiro ou quarto na lista de goleadores do Campeonato Brasileiro daquela época, que o Grêmio foi campeão, o Paulo Nunes foi artilheiro, depois teve Reinaldo do Atlético, eu acho que o Túlio, e depois venho eu com 13 ou 14 gols”, relembrou.
“Eu acredito que o Guarani foi o time que eu mais me destaquei no Brasil, eu fiz bastante gol no Guarani, e depois eu fui para o México, Tigres de Monterrey, e daí, sucessivamente, para o Werder Bremen”, acrescentou.
Chegada ao Werder Bremen
Após passagem pelo Tigres, do México, Ailton chegou ao Werder Bremen, da Alemanha, onde escreveu o capítulo mais vencedor de sua carreira. Depois de um período de adaptação, o atacante se tornou peça central da equipe comandada por Thomas Schaaf.
“Muda tudo: a língua, o frio, o futebol. As informações que chegavam eram difíceis para um brasileiro se adaptar. Mas eu olhei e disse: eu topo desafio, eu gosto de desafio. Cheguei em um período em que o Werder não estava bem, estava na zona de rebaixamento, foi muito difícil sair, saímos no último jogo. Eu joguei muito pouco naquela temporada”, avaliou Ailton.
Para o ex-jogador, o treinador teve papel essencial para sua adaptação na equipe.
“Ele tinha uma mentalidade diferente daquela imagem dura do futebol alemão. Ele me deu liberdade para ser eu mesmo. Claro, sempre fui profissional, mas a disciplina alemã é diferente da brasileira. Mesmo assim, procurei me adaptar rápido. Eu fui crescendo ao longo das temporadas, fazendo mais gols, até chegar na temporada de 2004, que foi o auge da minha carreira. Foi o meu top como jogador de futebol.”, acrescentou.

Ailton foi artilheiro do Campeonato Alemão, com 28 gols
Na temporada 2003/2004, Ailton foi campeão da Bundesliga, artilheiro do campeonato com 28 gols e eleito o melhor jogador da competição, sendo o primeiro estrangeiro a conquistar o prêmio. Um dos gols mais emblemáticos foi marcado contra o Bayern de Munique, em Munique, com uma cavadinha sobre o goleiro Oliver Kahn.
“Como paraibano, chegar na Alemanha e ser eleito melhor jogador do ano foi uma realização enorme. Claro que eu tinha qualidade, mas também tinha um time que jogava para mim. Muitos estrangeiros passaram pelo futebol alemão e não conseguiram isso. Eu fui o primeiro. Trabalhei para isso, mas não conquistei sozinho. O time sabia que eu decidia jogos e jogava em função disso”, comemorou Gonçalves.
“Nessa temporada, o Werder montou um time muito forte, com jogadores como Micoud e Ivan Klasnic. Eles entenderam rapidamente meu estilo de jogo, sabiam explorar minha velocidade. A adaptação fez com que tudo fluísse. Eles já sabiam onde eu estaria e o momento certo de dar o passe. Com isso, eu fiz 28 gols, fui artilheiro da Bundesliga e eleito o melhor jogador do campeonato, sendo o primeiro estrangeiro a conquistar esse prêmio. Foi uma temporada inesquecível e a melhor da minha carreira”, acrescentou.
Seleção Brasileira?
Apesar do sucesso na Alemanha, Ailton revelou uma certa “frustração” por nunca ter sido convocado para a Seleção Brasileira.
“Eu não tive oportunidade na seleção brasileira, e isso foi uma grande sacanagem. Eu não falo de Copa do Mundo, mas de Copa América ou amistosos. Fui o melhor jogador da Bundesliga, campeão, artilheiro, disputando a Chuteira de Ouro com Ronaldo e Henry, e não tive sequer a chance de estar no grupo. Acho que houve preconceito por eu jogar em um clube que não era Bayern ou Borussia. Isso me deixou triste, porque era o que faltava na minha carreira”, avaliou.
Ele também revelou que chegou a receber convite para se naturalizar e defender o Catar, mas a mudança nas regras da FIFA impediu o acerto.
“Depois surgiu a possibilidade de me naturalizar para jogar pelo Catar. Aceitei o convite porque vi que o Brasil não me chamaria. Fui até Doha, conversei com o Sheik, ficou tudo acertado. Mas a FIFA mudou as regras, exigindo vínculo com o país por alguns anos. Como eu não queria sair do Werder Bremen, não deu certo”, concluiu.
Embaixador do clube, Ailton é celebrado até hoje pelos torcedores do Werder Bremen, que o consideram “ídolo intocável”. Mas o atacante também foi alvo de outras equipes.
“Quem demonstrou interesse foi o Bayer Leverkusen e o Borussia Dortmund. O Werder me considerava inegociável. Depois, o Schalke chegou com um projeto forte, e eu aceitei. Mesmo assim, a minha idolatria no Werder Bremen continuou muito grande. A torcida sempre me respeitou e me amou, mesmo eu jogando em clubes rivais. Esse amor entre Ailton, Werder e torcida vai existir para sempre”, finalizou.
Passagem pelo Campinense

Ailton pelo Campinense
Já na reta final da carreira, Ailton retornou à Paraíba para defender o Campinense. Apesar de ter marcado um gol na estreia e disputado alguns jogos, a passagem foi curta. Ele ficou pouco meses no clube e saiu em abril de 2009.
“O Campinense tinha muitos problemas administrativos, inclusive falta de pagamento. Quando você passa muitos anos na Europa, acostumado com tudo funcionando certinho, é muito difícil se adaptar a outro sistema”, disse.
“Quando eu retornei ao Campinense, quando voltei à Paraíba, eu não queria jogar no Brasil. Mas tinha um amigo meu, que jogou no Sport, que é paraibano também, o Dário, volante, que jogou no Sport muitos anos. O Dário é de Campina Grande e a gente estava almoçando lá. Ele perguntou se eu não tinha vontade de jogar na Paraíba. Eu disse que, depois de tantos anos, não tinha essa vontade de jogar nem na Paraíba nem no Brasil; talvez, se voltasse, seria para um país asiático”, contou Ailton.
“Ele falou que o Campinense tinha uma proposta para mim, que disputaria a Série B do Brasileiro. A ideia era jogar o Paraibano para se adaptar e depois entrar no Brasileiro já em melhores condições, porque voltar para o Brasil sempre exige um tempo de adaptação. Conversei com minha esposa, e ela achou que seria bom jogar perto de casa. Eu sempre gostei de vaquejada, cavalo, essas coisas. Meu pai também pediu para eu ficar um pouco mais por perto, cuidar das coisas daqui. Campina é ali do lado, não precisaria nem morar lá”. acrescentou.
“O Campinense não estava satisfeito comigo e eu também não estava satisfeito com o Campinense. As duas partes se entenderam. Na época ainda quiseram indenização, mas eu questionei como poderiam pedir isso sem pagar o que deviam. No fim, ficou tudo certo. Gosto muito do Campinense, torço para que viva bons momentos, mas naquela época foi muito complicado. Acabei indo para a China, onde encerrei minha carreira como jogador profissional”, concluiu.
O “Príncipe de Mogeiro” e os planos para o futuro
Mesmo com a carreira construída fora do país, Ailton tem uma forte ligação com Mogeiro. Apaixonado pela vida no campo, pela vaquejada e pelos cavalos, vê a cidade como seu “refúgio”.
“Quando você nasce e se cria no interior, você cria raízes. Sempre amei Mogeiro. Quando comecei a ganhar dinheiro, investi no que mais gosto: cavalo e vaquejada. Hoje a vaquejada virou um esporte caríssimo, muito diferente de antes. Para acompanhar, precisa de muita estrutura e tempo, coisa que eu não tenho”, disse.
“Mogeiro é meu lazer. Não gosto de luxo. Gosto da vida simples, do campo, apesar das dificuldades com a seca, que tornam a criação de animais cada vez mais difícil. Mesmo assim, para mim é gratificante. Prefiro isso a praia, lancha ou jetski. Vou mais à praia por causa da minha esposa, que é mexicana, mas meu lugar é o interior”, acrescentou.
O Paraibano em Campo ainda fez um ping-pong com o atacante, que respondeu a todas as perguntas sem titubear.
Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Foi em 2004, quando fui campeão da Bundesliga com o Werder Bremen. Depois de mais de vinte anos, levar o clube ao título, enfrentando gigantes como Bayern, Borussia e outros, foi inesquecível e vai ficar marcado para sempre.
E o pior momento?
Foi no Hamburgo. No segundo jogo me machuquei gravemente, fiquei muito tempo parado e não consegui recuperar a forma. Aquilo me machucou muito.
Gol mais marcante?
O terceiro gol contra o Bayern de Munique, em Munique, de cobertura no Oliver Kahn. Aquele gol praticamente colocou as duas mãos na taça.
Defensor mais difícil?
Jogar contra o Lúcio era muito difícil. Forte, alto, rápido, com passadas largas. Foi um dos mais complicados.
Melhor companheiro?
No Brasil, um jogador chamado Gilson, do Guarani. Na Alemanha, Claudio Pizarro e Ivan Klasnic, fundamentais na minha trajetória no Werder Bremen.
E hoje, qual o seu maior sonho?
Tenho um contrato com o Werder Bremen como embaixador do clube. Tenho um projeto de levar o nome do Werder para a Paraíba, talvez com categorias de base. Quero trabalhar nisso este ano, buscar parcerias. Ainda tenho três anos de contrato e, no momento, quero me dedicar aos meus filhos. Depois, penso com mais calma nesses projetos, mas tenho muito interesse em fazer essa ponte entre o Werder Bremen e a Paraíba.
Gostou da entrevista?
Fantástico. Você me deixou muito à vontade. É importante esclarecer pontos para quem não me viu jogar. Parabéns pelo programa. Podemos fazer debates com outros jogadores paraibanos que atuaram na Europa. Seria bem legal.
MaisPB
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