João Pessoa, 18 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC
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Irene Dias vai chegar aos cem anos em 2027, mas ela não vem de arrastadas solidões, não, ela vem de uma guerra, de uma chuva ácida e dançou com os deuses da chuva. Eu vi.
Somos poucos, somos muitos, muito pouco, e somos muito mais e não estamos por fora, mas deve haver uma saída na ladeira de São Francisco, no gozo do Itinerário Lírico de João Pessoa, de Jomard Moares Souto. Irene não veio salvar o mundo e suas incubências.
Não, não estamos falando da cidade, mas de uma pessoa, uma só pessoa que enche o meu palácio, meu paladar, minha revolução, meu sim e meu não, que conheci no final dos anos 70
Convidei a poetisa Irene Dias para o podcast ´K Pra Nós´ e achei que ela não toparia, mas topou, e pensei – Irene é mais que isso, é o sol que gera calor e então seguimos a breve existência. Onde vamos parar, Irene?
A primeira vez foi no final dos anos 70, ela já mostrava sua morenice, um pedacinho do serra da boa esperança, de onde ilusoriamente vimos e nunca chegamos, mas, com certeza, nós também, porque Irene é quem não morre nunca. Um transe, uma bailarina no dancing, vestida de poesia.
Irene chegou minutos antes de entrarmos no estúdio, e de cara, nosso amor deu certo, gargalhadas sem lágrimas. Na verdade, Irene é imensa.
Irene esquartejou sem dar nomes, os homens canalhas que lhe mandavam bilhetes, certos que a mulher é uma ilha particular, mas só ela, a escritora que ultrapassou décadas no tinteiro, ao escrever poemas eróticos na década de 1970, só ela, só ela, para ter a certeza que vinhemos para acontecer e ainda somos constelação.
Engrandecidos pela liberdade que se move no claro e no escuro, eu boto a mão no fogo no que nos salta aos olhos. E não estou a tergiversar.
No podcast pude ver cada curva da imaginação, com a brisa que o Brasil beija e balança, que o acaso impõe aos nossos olhos infantis de que, uma mulher é mais que uma mulher, mais que mil homens.
Sentada olhando pra mim, o fone na lapela, lembrando-nos de tudo, mão a mão, numa odisseia que só ela poderia sair da tela e voltar para salvar quem ainda vive atolada na breu e agora, na hora, tão além, Irene vem, Irene ri, Irene longe da arena dos imbecis.
Irene voraz. Lembro dela e Lua Almeida no cubículo da sala da nossa casa, um janelão verde dando para uma rua sem trânsito, e, em transe, ficávamos todos com a improvisação de um sarau – morro de saudade desse tempo e delicadezas.
Mal me reconheço andando por aí entre novas pessoas, para o fluxo inútil dos milhares de novos poetas e sangro depois, bem depois, que o galo canta.
Irene e o arco, o barco, o entra e sai dos mares, uma atriz, uma sereia, um disco voador, que aprendeu cedo a se multiplicar e eu sou um trovador.
Somos do século passado, deixamos o náufrago para trás. Somos carne em escotilha, do sentido da palavra, das águas, das almas do Sanhauá. Deus dará, Deus dará. Bora rir, Irene!
Kapetadas
1 – Deu a louca – a literatura brasileira não sofre de falta de talento, mas de excesso de camaradagem.
2 – Por favor, voltem a ler. Voltem. Se um livro for difícil, comprem gibis.
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
BOLETIM DA REDAÇÃO - 15/01/2026