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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Irene Dias, 100 vidas

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publicado em 18/01/2026 ás 07h00
atualizado em 17/01/2026 ás 23h02

Irene Dias vai chegar aos cem anos em 2027, mas ela não vem de arrastadas solidões, não, ela vem de uma guerra, de uma chuva ácida e dançou com os deuses da chuva. Eu vi.

Somos poucos, somos muitos, muito pouco, e somos muito mais e não estamos por fora, mas deve haver uma saída na ladeira de São Francisco, no gozo do Itinerário Lírico de João Pessoa, de Jomard Moares Souto. Irene não veio salvar o mundo e suas incubências.

Não, não estamos falando da cidade, mas de uma pessoa, uma só pessoa que enche o meu palácio, meu paladar, minha revolução, meu sim e meu não, que conheci no final dos anos 70

Convidei a poetisa Irene Dias para o podcast ´K Pra Nós´ e achei que ela não toparia, mas topou, e pensei – Irene é mais que isso, é o sol que gera calor e então seguimos a breve existência. Onde vamos parar, Irene?

A primeira vez foi no final dos anos 70, ela já mostrava sua morenice, um pedacinho do serra da boa esperança, de onde ilusoriamente vimos e nunca chegamos, mas, com certeza, nós também, porque Irene é quem não morre nunca. Um transe, uma bailarina no dancing, vestida de poesia.

Irene chegou minutos antes de entrarmos no estúdio, e de cara, nosso amor deu certo, gargalhadas sem lágrimas. Na verdade, Irene é imensa.

Irene esquartejou sem dar nomes, os homens canalhas que lhe mandavam bilhetes, certos que a mulher é uma ilha particular, mas só ela, a escritora que ultrapassou décadas no tinteiro, ao escrever poemas eróticos na década de 1970, só ela, só ela, para ter a certeza que vinhemos para acontecer e ainda somos constelação.

Engrandecidos pela liberdade que se move no claro e no escuro, eu boto a mão no fogo no que nos salta aos olhos. E não estou a tergiversar.

No podcast pude ver cada curva da imaginação, com a brisa que o Brasil beija e balança, que o acaso impõe aos nossos olhos infantis de que, uma mulher é mais que uma mulher, mais que mil homens.

Sentada olhando pra mim, o fone na lapela, lembrando-nos de tudo, mão a mão, numa odisseia que só ela poderia sair da tela e voltar para salvar quem ainda vive atolada na breu e agora, na hora, tão além, Irene vem, Irene ri, Irene longe da arena dos imbecis.

Irene voraz. Lembro dela e Lua Almeida no cubículo da sala da nossa casa, um janelão verde dando para uma rua sem trânsito, e, em transe, ficávamos todos com a improvisação de um sarau – morro de saudade desse tempo e delicadezas.

Mal me reconheço andando por aí entre novas pessoas, para o fluxo inútil dos milhares de novos poetas e sangro depois, bem depois, que o galo canta.

Irene e o arco, o barco, o entra e sai dos mares, uma atriz, uma sereia, um disco voador, que aprendeu cedo a se multiplicar e eu sou um trovador.

Somos do século passado, deixamos o náufrago para trás. Somos carne em escotilha, do sentido da palavra, das águas, das almas do Sanhauá. Deus dará, Deus dará. Bora rir, Irene!

Kapetadas

1 – Deu a louca – a literatura brasileira não sofre de falta de talento, mas de excesso de camaradagem.

2 – Por favor, voltem a ler. Voltem. Se um livro for difícil, comprem gibis.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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