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Jornalista, cronista, diácono na Arquidiocese da Paraíba, integra o IHGP, a Academia Cabedelense de Letras e Artes Litorânea, API e União Brasileira de Escritores-Paraíba, tem vários publicados.

Símbolo de resistência  

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publicado em 26/03/2024 às 07h00
atualizado em 26/03/2024 às 14h57

Chegamos ao sítio com o sol virando de lado. Fomos acariciados pelo vento morno. Na caatinga, um pé de mandacaru detrás da casa nos dava boas-vindas. Ao largo dessa vegetação devastada, em lugares distantes, como símbolo de terra desértica, também distinguíamos juazeiros e baraúnas que nos ofereciam um tantinho de sombra.

A região do município de Caturité, como as demais no Cariri, na época de nossa visita, tinha a vegetação tostada e a terra em cascalho. Símbolo de resistência do Nordeste, o mandacaru destacava-se na caatinga pelo porte e pela cor de esperança.

Ali, o pôr do sol é espetacular, exuberante, poético. O mormaço da caatinga se mistura com os últimos raios no entardecer. Deslumbrante.

Próximo da casa erguida em pequena elevação, caiada de branco, com porta e janela olhando para o sul, um mandacaru majestoso no meio da vegetação arregaçada e poeirenta por causa da ausência de chuva.

No período de inverno, o mandacaru se mantém recolhido no meio da vegetação para não ofuscar a opulência das árvores e plantas em seu redor. A exuberância das suas flores se destaca entre as demais e atraem o mais distraído olhar.

A resistência às intempéries periódicas e a sua presença no lugar estimulam as pessoas a nunca se separarem daquele torrão onde moram.

Em determinadas épocas do ano, as flores murcham durante o dia para melhor resistir ao sol, retornando com vigor à noite, a fim de disputar com as estrelas os olhares do caboclo fatigado.

Planta que nasce em qualquer lugar, sem os cuidados que outra cultura normalmente exige, alimenta-se do pouco nutriente retirado do solo e absorve o mínimo de água para sobreviver na mais cruenta temperatura. Na seca, é usada na alimentação de animais, e das flores, de onde a arapuá retira o néctar.

Calangos e lagartixas procuram uma nesga de sombra para se acomodar, e insetos resistentes ao clima abrasador procuram suas raízes para o agasalho temporário.

Naquele dia da visita, com o sol a pino e causticante, recorremos à sombra do majestoso mandacaru, único refúgio depois do alpendre da casa. O parceiro de andanças e sonhos abriu o alforje da memória de vaqueiro para falar de sua vida, recordando pedaços das antigas peripécias pela caatinga, desde a tenra idade. Sua história foi construída no mormaço, no sumiço da água e na poeira da terra que o vento conduz em pequenos redemoinhos, espalhando gravetos e folhas secas.

Crescemos repartindo, com os animais a mesma agonia, e com os familiares, os sonhos nem sempre realizáveis. Nas serras do Brejo, que foram as paisagens de minha infância, nasce o mandacaru, que também chamamos cardeiro. Seu verde se esparrama pelas enseadas, cresce na beira de alguma reserva de mata ou no aceiro de canaviais, mesmo que não seja na abundância do Sertão. O mandacaru do Brejo pode até não ter a imponência dos existentes nas paisagens sertanejas, mas lembra que somos frutos da mesma terra e resistentes diante das intempéries.

Como canta o poeta, quando o mandacaru flora na seca é sinal de que a chuva chega.

Quando observamos uma árvore que resiste bravamente ao sol, reconhecemos que somos capazes de construir caminhos e realizar projetos.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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