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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: [email protected]

Os catadores de bosta

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publicado em 25/06/2022 às 08h30

Ao longo do tempo o mundo assistiu a degradantes exemplos de como o ser humano pode se humilhar para estar junto ao poder e até eventualmente beneficiar-se desse poder.

Já contei aqui sobre a cena do Fula de Bauma, magistralmente retratada no belíssimo filme “Amistad”, do meu colega diretor Spielberg. Em uma cena os escravos vindos da África e que foram capturados a bordo do tal navio em alto mar, estão acorrentados em celas infectas e entra o advogado com suas caras roupas e um enorme chapéu. Um dos escravos pergunta ao outro quem era aquele. Pela importância, o outro responde que deve ser o Fula de Bauma, referindo-se à mais alta autoridade da região africana de Bauma, cuja função era recolher esterco para adubar o roseiral do Rei, o que lhe dava enorme distinção no reino.  Um terceiro cativo pergunta ao que recebera a informação quem era o personagem e ele resume; “- É o catador de bosta”.

No reinado de Henrique VIII na Inglaterra do século 16, os nobres tinham sua importância medida pela proximidade com Sua Majestade; quanto mais próximos mais importantes. No palácio, o centro da corte era a “câmara privada”, só frequentada pelos amigos do Rei, entre os quais os que tinham o privilégio de vestir Henrique VIII, por isso mesmo chegando mais próximos dele. Eram os senhores do corpo, que tinham acesso ao quarto do Rei. Eram eles quem acordavam-no sempre às oito da manhã e controlavam quem entrava e saia dos aposentos reais.

No entanto, a posição mais próxima do Rei era conhecida como “Groom of the stool”, que numa tradução livre seria o serviçal do banquinho, referência ao móvel usado por Sua Majestade para fazer suas necessidades. Em outras palavras, era responsável por limpar o traseiro real. Henrique VIII confiava tanto nessas figuras que eles eram conhecidos como os principais cavalheiros da câmara. Mais importante ainda, eram os postos Ipiranga do reino. Sir William Compton ocupou esse cargo por quase 20 anos e comandou o mais poderoso orçamento do mundo na época, sem nunca deixar de “fazer o asseio real” (se é que vocês me entendem), verdadeira fonte do seu poder.

Trouxe esse, como direi, escatológico assunto para mostrar aos leitores como ainda hoje os políticos sedentos de poder e prestigio submetem-se a qualquer humilhação para conseguirem seus pérfidos intentos. E são esses Fulas que se arvoram à condição de pais da pátria, sempre no poder, não importando qual será o traseiro que terão de limpar ou o esterco que terão de catar.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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