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Chica da Silva está de volta e, desta vez, biografada pela historiadora Mary Del Priore. Com selo da editora José Olympio “Meu nome é Francisca”, biografia de Chica da Silva (1732-1796) já está nas livrarias e chega para desmistificar a história da mulher parda que se tornou uma das figuras mais influentes do Brasil colonial.
O livro de Mary Del Priore reconstrói a trajetória de Francisca no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, Minas Gerais, revelando uma realidade distante dos estereótipos. Del Priore apresenta uma Chica da Silva empreendedora que, através do relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, construiu uma vida familiar estável e conquistou relevante posição social.
A biografia destaca o papel de Chica como matriarca dedicada de 13 filhos, alguns educados em instituições prestigiadas como a Universidade de Coimbra e o Convento das Macaúbas. A obra também a situa no contexto de uma classe emergente de “pretas empreendedoras” que existia em Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, cujos descendentes se tornaram parte da elite durante o Império brasileiro
A autora conversou com o MaisPB e traz mais novidades do seu livro
MaisPB – O livro mostra uma Chica da Silva muito distante da personagem do filme de Cacá Diegues, de 1976?
Mary Del Priore – Sem dúvida. Cinema e televisão trabalham com representações, isto é, com ficções. A Chica da Silva ali encenada nunca existiu. O que existiu foi Francisca da Silva, personagem histórica que poucos conhecem. Ao resgatá-la, o livro revela a experiência concreta de milhares de mulheres pretas forras que, em ligações estáveis com homens brancos ou pardos, participaram ativamente da formação da sociedade brasileira. Foi no interior dessas famílias, na economia doméstica, na educação dos filhos e na construção de patrimônios que se operou grande parte da mestiçagem brasileira. Não é casual que, já no primeiro recenseamento do Império, em 1872, o Brasil registrasse mais pardos do que brancos: esse dado é indissociável da trajetória das muitas “Franciscas da Silva” espalhadas pelo território colonial e imperial.
MaisPB – Muita gente no Brasil tem uma visão distorcida da personagem. Seu livro chega em boa hora ou tardiamente?
Mary Del Priore – História nunca chega tarde. Ela avança à medida que novas pesquisas ampliam o campo do que sabemos. Os estudos sobre o cotidiano da escravidão, a vida familiar de cativos e forros, o trabalho feminino e as estratégias de mobilidade social das ex-escravizadas devolveram a Francisca um protagonismo ancorado em documentação sólida. Ela surge como mãe dedicada, educadora atenta — que enviou os filhos para estudar nas melhores instituições disponíveis —, proprietária de bens e de escravos, membro ativo de irmandades religiosas e figura plenamente integrada à sociedade local. Como tantas outras mulheres de seu tempo, Francisca simboliza as mestiçagens biológicas e culturais que estruturaram o Brasil.
MaisPB – Estamos diante de uma Chica da Silva empreendedora, mãe de treze filhos, alguns formados em Coimbra. Como compreender isso?
Mary Del Priore – A documentação relativa a Minas, Pernambuco ou Bahia mostra que o destino social de forros e mestiços dependia muito do contexto em que viviam. Nas grandes vilas e cidades, onde a população preta e mestiça era majoritária, criavam-se mecanismos de integração social bastante eficazes. Uma mesma pessoa podia aparecer como “mulata” em um documento e “branca” em outro, conforme sua posição social e fortuna. Esse processo de embranquecimento social permitiu que, já no início do século XIX, mestiços ocupassem cargos na administração, no clero e no ensino. No Sul, onde a presença africana foi mais tardia e se deu em meio à imigração europeia, a mobilidade foi mais difícil, o que levou parte da sociologia regional a interpretar a mestiçagem de modo distinto. No caso de Francisca, alfabetizada pelo companheiro, ela acompanhou de perto a formação das filhas no Convento das Macaúbas e dos filhos em Coimbra — onde, aliás, outros jovens mestiços também estudavam. Tema que desenvolvi em outro livro.
MaisPB – Os registros iconográficos e os espaços associados a Francisca permanecem preservados?
Mary Del Priore – Sim. Embora sem o mobiliário original e sem o jardim descrito na excelente biografia de Júnia Furtado, o sobrado permanece de pé. Foi ali que Francisca deu à luz treze filhos de João Fernandes de Oliveira, construiu uma vida de proprietária, administrou minas e escravos, frequentou a sociedade local e nela se integrou plenamente.
MaisPB – Você prefere biografias em volumes mais curtos, como fez também com a de Tarsila do Amaral?
Mary Del Priore – Plenamente. Desde que deixei a USP, meu objetivo tem sido ampliar o público da História. Escrevo livros de divulgação baseados em bibliografia rigorosa, mas com linguagem acessível e cuidado literário. Conhecimento e forma não são opostos. Um bom livro precisa envolver o leitor, conduzi-lo no tempo e, ao mesmo tempo, oferecer lastro documental — razão pela qual faço questão de incluir bibliografia ao final de cada obra.
MaisPB – Você acha que Chica da Silva sobreviveria no mundo atual, que parece mais intolerante?
Mary Del Priore – O Brasil continua sendo uma sociedade profundamente mestiça e móvel, como mostram os dados mais recentes do IBGE. Temos hoje mais pardos do que brancos e uma proporção menor de pretos. Contra o racismo existem leis, e tanto o Estado quanto a sociedade civil estão atentos ao problema. A transmissão de valores começa sobretudo na educação e no ambiente doméstico. Vale lembrar, ainda, que o mundo caminha para formas cada vez mais híbridas de pertencimento. Fala-se hoje, inclusive, em “sociedades mistas” ou “mixed”, como nos Estados Unidos. A mestiçagem, longe de ser uma anomalia, foi uma solução histórica no passado e segue sendo uma realidade no presente.
MaisPB – Algo importante ficou fora do livro?
Mary Del Priore – Sim: o papel dos homens. A leitura atenta de inventários e testamentos desde o século XVIII revela a presença constante dos pais nas famílias mestiças. A preocupação com heranças, legados e proteção dos filhos — sobretudo das filhas — indica estabilidade, compromisso e continuidade. Esses documentos ajudam a compreender a formação da sociedade brasileira para além de estereótipos simplificadores.
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