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João Medeiros é pediatra e presidente da Academia Paraibana de Medicina. E-mail: j.g.medeirosfilho@gmail.com

A História se repete

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publicado em 21/01/2022 às 08h49
atualizado em 21/01/2022 às 05h50
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No final do século XIX e início do século XX três epidemias/pandemias assolavam o mundo: a da Peste  Bubônica,  a da Febre Amarela e a da Varíola. No País, o notável cientista Oswaldo Cruz assumiu a bandeira de enfrentamento desses males que dizimaram populações.

Conta-se que, no combate à Peste Bubônica, cujo agente etiológico é a Yersínia pestis, tendo como reservatório os roedores e, como vetor, a pulga, iniciou-se, campanha intensa à caça dos ratos; como incentivo, o governo oferecia em pagamento certa quantia por cada um que fosse capturado. No entanto, por incrível que pareça, com  astúcia e malandragem alguns maus elementos passaram a investir em criatórios de ratos.

Em relação à Febre Amarela, Oswaldo Cruz criou a chamada Brigada Mata-Mosquitos  – que foi muito combatida e satirizada à época -, para  eliminar o Aedes aegypti, identificado pelo médico cubano Juan Finlay como o vetor viral.

A varíola , por outro lado, doença que dizimou populações no mundo inteiro, tirando a vida de nada menos que 300 milhões de pessoas, somente no século XX, já contava com uma vacina descoberta nos idos de 1796 por Edward Jenner, mas havia grande resistência à adesão às campanhas vacinais, além da reduzida disponibilidade de vacinas.Nesse contexto, o paulista  Rodrigues Alves que presidia a nação, e enfrentava forte oposição, numa época em que dominava a chamada  “República Café com Leite”, face  à alternância do poder entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, sancionou a Lei nº 1.261 que tornava obrigatória a apresentação do certificado de vacinação para matrícula escolar, viagens, posse em emprego público, e , até, casamento: houve grande reação popular, inclusive com a criação da Liga contra a Vacinação Obrigatória , liderada pelo senador Lauro Sodré.

Ocorreram acirradas manifestações populares com quase mil prisões , 110 feridos e cerca de trinta óbitos.Cedendo à tamanha pressão, o presidente decidiu, então, revogar a lei. Com o crescimento avassalador da epidemia, e prevalecendo o bom senso, a população passou a procurar espontaneamente os postos de vacinação. A partir de então, as campanhas sistemáticas de vacinação, além da sua incorporação  ao calendário vacinal , resultaram no banimento do vírus, e a enfermidade foi declarada erradicada na face da terra em 1980 : certamente, um dos maiores feitos da humanidade.  Não é sem razão, portanto, que Friedman e Friedland , no seu notável livro, elencaram a vacina antivariólica como uma das dez maiores descobertas da medicina.

Há dois anos enfrentamos essa avassaladora pandemia da COVID-19, que somente em nosso País já ceifou a vida de mais 620 mil brasileiros. Medidas importantes para contenção da enfermidade, como o uso de máscaras, a lavagem das mãos , o distanciamento social ( e até lockdown) foram instituídas, mas é fato científico de que sua erradicação dependeria fundamentalmente da descoberta de uma vacina, o que em geral demandaria longo período de pesquisa. A premência de tal iniciativa suscitou um esforço uníssono da comunidade científica internacional e, em tempo recorde, cerca de duas centenas de vacinas , utilizando tecnologias diversas, estavam sendo desenvolvidas e, rapidamente, algumas delas venceram as três fases de investigação e foram liberadas para uso, com segurança, por diversas agências reguladoras internacionais, inclusive a ANVISA, em nosso País, Instituição séria, apolítica e da maior credibilidade.

E, apesar da capacidade de mutação do coronavírus, resultando em nada menos de quatro ondas da pandemia, graças à vacinação em massa, que já contempla quase 70%  da nossa população, começamos a respirar com mais tranquilidade: reduziram-se,substancialmente, a mortalidade e as formas graves da doença entre os vacinados.

No que concerne à população infantil, a vacina está liberada para uso , com segurança e mínimos eventos adversos. É verdade que as crianças, em geral, são acometidas de formas mais leves; no entanto, sérias complicações têm sido relatadas, como a  Síndrome Inflamatória Multissistêmica, e, mais de trezentas crianças sucumbiram frente à enfermidade, em nosso País.

A vacinação de crianças é de suma importância, não apenas no que  concerne à proteção individual, mas também à de  toda a coletividade: é sabido que, para a erradicação do mal, a vacinação em massa é mandatória. Não podemos dar ouvidos  às “criminosas “  fake news, e tampouco enveredar pelo descaminho da politização: nem à direita, nem à esquerda, mas com o olhar para frente, seguindo a orientação das entidades médicas nacionais e internacionais – a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Sociedade Brasileira de Imunizações, a Sociedade Brasileira de Infectologia, a American Academy of Pediatrics, para citar apenas algumas – da ANVISA e do CDC- Atlanta-USA, e de outras agências reguladoras do exterior, além da experiência de inúmeros países, inclusive dos Estados Unidos, que já imunizaram mais de nove milhões de crianças, com poucos e  irrelevantes eventos  adversos.

Dessa maneira, na condição de pediatra militante há quase cinco décadas, sinto-me no dever de conclamar os pais ou responsáveis a aderirem à campanha de vacinação infantil contra COVID-19.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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