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Clara Velloso Borges é poeta, escritora e professora de Literatura, com graduação em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. É também concluinte do bacharelado em Direito. E-mail: claravellosob@gmail.com

Leituras de divã

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publicado em 08/10/2021 às 07h42
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Perante todos os mistérios do universo, fazer terapia consolidou-se como forma de compreender uma parte deles, contida em nosso infinito particular. Além da experiência terapêutica, parece que a leitura de fundadores da Psicologia também tem caído nas graças de leigos – como eu.

É um fenômeno incomum, afinal, dificilmente alguém que não estuda química lerá sobre estequiometria para entender o mundo. Com mais perguntas do que respostas, os textos que investigam o setting terapêutico e suas nuances não negam: a terapia é um acontecimento literário.

Primeiramente, a formação literária robusta de Freud é fundamental na construção de sua ciência. Não foi ao personagem Édipo, personagem de tragédia grega escrita por Sófocles, que o psicanalista recorreu para definir uma fase de desenvolvimento infantil? Se Freud foi influenciado pela Literatura, hoje ele a influencia, já que seus estudos servem como aporte interpretativo de obras literárias. Não é o único teórico que muito se aproxima do mundo das palavras. Jacques Lacan, por exemplo, coloca a linguagem em um pedestal – embora seus próprios textos sejam estruturados em frases de difícil compreensão.

No Brasil, a saúde mental já virou pauta tanto na maior novela de todos os tempos, O Alienista, quanto em romances policiais sádicos, como O Sorriso da Hiena. Mundo afora, entre a Literatura e a escuta terapêutica, há um subgênero que particularmente me cativa: o de terapeutas compartilhando casos marcantes. Sob o manto do anonimato, a experiência de pacientes é descrita com muita sensibilidade, por exemplo, nos livros Seu paciente preferido e O Carrasco do Amor. Como maior trunfo, tais obras reduzem o academicismo e tocam mais nossa humanidade.

Nos terrenos literários e psicoterapêuticos, vale (quase) tudo. Só não vale atuar como o analista de Bagé, personagem criado pelo cronista Luís Fernando Veríssimo. Ao ouvir as queixas de um paciente, o psicanalista coloca em prática o princípio da dor maior. Provido de conhecimentos não tão científicos assim, aplica a técnica do joelhaço: desfere um golpe no joelho do paciente, para que a dor física seja maior do que a emocional. Falta ética, sobra espaço no divã.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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