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Clara Velloso Borges é poeta, escritora e professora de Literatura, com graduação em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. É também concluinte do bacharelado em Direito. E-mail: claravellosob@gmail.com

Alza la bandera

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publicado em 20/08/2021 às 07h39
atualizado em 20/08/2021 às 04h40
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De tanto imergir em narrativas de cavalaria, o fidalgo Dom Quixote de la Mancha (foto) tornou-se incapaz de distinguir imaginação de realidade. Alguns pesquisadores até se apropriam da criação de Cervantes para debater sobre o delírio. Entretanto, considero a figura quixotesca muito mais interessante para discutir os sonhos. Afinal, ao forçar a credulidade alheia, Dom Quixote não só participa de uma ilusão, como também se permite contemplar um sonho de vida melhor.

Se, por um lado, as agendas apertadas regem nossa organização diária; por outro, são os sonhos que nos movem a cumprir tais compromissos. Sem desejos e pulsões, a realidade não consegue ser tão imperativa. Freud explicaria isto melhor do que eu, o que me leva a observar a utopia sob outros aspectos.

É ao redor dos sonhos de uma comunidade latina em Nova York que gira a trama de “In the Heights”, musical disponível na plataforma HBO Max. Um bairro habitado majoritariamente por mexicanos, caribenhos e porto-riquenhos tem sofrido remodelações, devido à gentrificação. Além de viver, seus moradores desejam realizar pequenos sonhos, que conferem sentido às experiências individuais e mostram ao mundo que não são invisíveis. Com coreografias lindíssimas e excelente música, é impossível não cantar o verso “alza la bandera” quando a comunidade improvisa um carnaval, exibindo os símbolos de seus países de origem.

Não é como se a herança latina nos Estados Unidos fosse novidade em produções culturais. Sandra Cisneros, no livro A Casa na Rua Mango, traz uma protagonista atenta aos seus vizinhos em um bairro pobre de Chicago. Filha de mexicanos, a personagem principal tem nome, traços e sangue latino, mas nasceu em território estadunidense. Então, sua existência comporta uma luta constante por direitos fundamentais, como dignidade e moradia.

Enquanto a arte possui o poder de carregar e perpetuar a história daqueles que vieram antes de nós, o sonho confere motivação para batalhar por caminhos melhores do que trilharam nossos antepassados. Aliando os dois, como faz o musical “In The Heights”, não há como não pensar: eu sou, eu fui, eu vou.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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