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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

Pai, amor incondicional

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publicado em 09/08/2021 às 10h49
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Diferentemente dos animais irracionais o homem tem a necessidade de ser cuidado e assistido desde seus primórdios. Leva algum tempo para tornar-se liberto. Isto tanto no plano físico-biológico como no psicológico daí ser dependente das pessoas que estão em seu entorno. Isto nasce com a natureza humana que carece de um processo de aprendizado. Desenvolve-se gradativamente até alcançar à idade adulta, quando conquista sua independência.

Nesse interim, os méritos do caráter e da personalidade são implantados no início da sua construção. Isto implica em dizer que a realidade onde se situa determina sua maneira de pensar e agir sobre o seu meio. No contexto, o processo educacional surge como uma ferramenta que deve ser usada como instrumento de liberação e só se consegue imbricando o sentimento do amor nas atitudes disciplinares que devem nortear o homem do futuro. A conjuntura e a estrutura sociocultural–educacional, onde a pessoa está inserida são determinantes. Estes princípios são premissas indiscutíveis e servem como argumentações para justificarem os comportamentos.

Tenho falado sempre do amor em minhas crônicas. Aparece imperativamente porque é sentimento intrínseco ao ser humano capaz de moldá-lo, de transformá-lo e torná-lo participe do processo de humanização. Estou a dizer isto em razão de nesta semana ter ido à aula de hidroginástica e, como o tempo estava chuvoso, os alunos, meus colegas, não compareceram e ficamos eu e Alexander conversando. Nesse tempo, pude escutar o seu desabafo que me surpreendeu pela história de vida de que é portador. Alexander, bancário, ocupando cargo de gerência, bom salário, muito bem casado com Magnólia, funcionária pública, que trabalhava num turno na prefeitura e no outro no Estado. Tiveram um casal de filhos. A sua convivência no lar de tanta felicidade mais parecia um sonho. Apesar do emprego preencher a maior parte de seu dia não a atrapalhava. Dona de casa presente tomava a frente de tudo: precisava de alguma coisa em casa, por menor que fosse, já havia providenciado; a matrícula das crianças, quando via, já estavam matriculados, imposto IPVA o do carro, quando procurava já se encontrava pago. e por aí vai. Uma pessoa dinâmica, que não esperava. tomava de pronto a iniciativa. Difícil na época de hoje se encontrar igual.

Um dia Magnólia foi fazer exames e descobriu que estava com um câncer de estômago e aí a sua vida deu uma guinada de noventa graus. Seu esposo quis oferecer o que de melhor havia para o seu tratamento. Se desfez de todos os bens, as reservas existentes se exauriram. Tudo muito caro e várias vezes o plano de saúde não cobria alguns dos tratamentos prescritos que eram determinantes, na tentativa de buscar a esperança de cura e que valia a pena tentar.

Ao mesmo tempo a doença avançava, pois o câncer de natureza agressiva e o invasivo progredia. Estava para vender o único bem que lhe restava, a sua casa. Foi impedido pela esposa, o fez retroceder da decisão. Nos seus conselhos dizia: “Meu amor, eu sinto que estou indo embora, que me resta pouco tempo de vida. Não admito que se desfaça de nossa casa e que você e nossos filhos fiquem sem um teto”. Alexander sentindo aproximar-se do final e que o sofrimento de sua amada era tão grande, pediu demissão do seu cargo no banco para dedicar-se exclusivamente à mulher. Os diretores ponderaram e deram alternativas de soluções para que permanecesse, mas estava resoluto em sua iniciativa, que não foi demovida. E quando completou quatro anos daquele calvário Magnólia partiu docemente e tranquila no meio do aconchego e do carinho de seus familiares. Com aquela dedicação e assistência sentiram que conseguiram minorar suas últimas horas, deixando o vazio no coração daqueles que a amavam.

Com a ausência de Magnólia, mas sem nunca a esquecer, a vida caminha e Alexander tem que dar continuidade a rotina cotidiana. A educação dos filhos, foi uma jura e compromisso com a esposa, encaminhá-los etc. Não suportando ficar naqueles primeiros momentos no ambiente que tudo lembrava o seu amor e toda vivência de felicidade, sem emprego, resolveram ir para a casa de seus pais com seus filhos. A menina com quatro anos e o filho com quinze, adolescentes, idade difícil. Lá já moravam com eles seu irmão com a esposa. Passados alguns meses seus filhos reclamavam dos mal tratos da cunhada. Em face disso resolveu fazer um Curso de Corretagem para entrar em outro ramo profissional e logo concluso, retornou a sua antiga casa. Encarar de frente a nova realidade. Assim foi. Como não era afeto a trabalhos domésticos, teve que aprender e mudar sua postura. Entrou no ramo da corretagem, precisava ganhar a vida, numa profissão que poderia administrar seus horários. Foi dureza, mas tudo se ajustou a nova situação.

No meio do papo, perguntei: você não pensa em se reconstituir novamente? Assim respondeu: “Já tentei e parecia que ia dar certo. Porém quando levei pela primeira vez a moça em minha casa, surpreendi-me. Minha esposa gostava muito de plantas e eu conservava do mesmo modo quando estava viva. Empenhava-me com prazer, ao agir assim, dava-me a impressão de sentir sua presença aprovando aquela minha ação. Aliás isto acontecia em tudo que realizava com meus filhos, na arrumação da casa etc. Eu mantinha os porta retratos da família em todos os lugares da casa, até para manter vivas as lembranças para mim e meus filhos. Então, ao adentrar à casa a moça foi reclamando da quantidade de plantas e de porta-retratos. Percebi que não dava certo e resolvi ficar sozinho. Professora: Nós só amamos verdadeiramente uma vez na vida. Não está entre nós, mas eu amo e vou amá-la pra sempre”

O filho de 19 anos fez concurso público para o Curso de Formação de Oficiais CFO – o ingresso dar-se- á na graduação de Cadete, como contingente de praças especiais. Ao concluí-lo foi declarado Aspirante a Oficiais – CEOPM, é segundo tenente. Diz: “quanto a meu filho eu já estou com a missão cumprida. Falta agora a menina que deseja ingressar no Curso de Medicina e está prestes a fazer o exame do ENEM. Vou apoiá-la no que puder”.

Essa história triste, enaltece o amor incondicional que significa amor pleno, completo, absoluto, generoso, altruísta e infinito, típico de um pai que se doa sem querer nada em troca. Compara-se ao amor de Deus pela humanidade por quem se entregou e foi sacrificado, como está na Bíblia em 1 Coríntios 13:4-7, “o amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Às vezes as pessoas dizem “Eu te amo “com tanta facilidade, mas logo querem respostas. Não é o caso de Alexander que fez seus momentos de amor se tornarem eternos, não pontuais no tempo mas perpetuado no sentimento que carrega por toda vida. O amor incondicional de esposo e pai.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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