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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertopoesia@gmail.com

Estamos vivos!

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publicado em 16/06/2021 às 08h11
atualizado em 16/06/2021 às 05h29
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Sem nenhum tipo de sentimento místico face ao mistério do mundo, mas convicto de que existe uma transcendência na imanência, assim como a possibilidade do sagrado nas entranhas do barro humano, sinto-me gratificado perante as coisas e os homens.

Estou vivo!

Estar vivo é milagre. A propósito, lembrando Manuel Bandeira, tudo é milagre. A rosa, a água, o pássaro, o peixe, o vento, o verme, o orvalho, a pedra, o fogo. Tudo é milagre. Diz o poeta: “Bendita a morte que é o fim de todos os milagres!”.

Mas insisto: estou vivo!

E ouço, agora, ao volante, na agonia do trânsito, Chico Buarque (foto): “Roda viva”. A letra é triste; a melodia é melancólica, porém me envolvo na cálida serenidade dessa tristeza e me deixo acalentar pela insólita cadência dessa música que me concede, nos compassos internos de suas ressonâncias sonoras, alguma coisa do segredo da vida.

O fremir dessa experiência cotidiana me conforta no diálogo renhido com a fera, e uma espécie de harmonia me nutre e me suspende, absolutamente seguro, diante do abismo e dentro do absurdo.
Vejo as criaturas que passam pelas avenidas do tempo e procuro cultivar o sentimento essencial da igualdade entre os homens. Esses homens que se cruzam na esfera da existência e são os mesmos homens, os mesmos bichos humanos, os mesmos seres de carne e osso, alma e espírito, seja no desamparo, seja na fortuna.

Sei, e como sei, pois sou um deles, das suas fragilidades e grandezas, de seus sonhos e de seus desenganos, tanto na hora primeira quanto na última, com a fatalidade intransferível de sua marca e de seus enigmas.

Bom dia, meu irmão! Boa noite, minha irmã! A vida está aí: não nos recusemos a seus sortilégios.

Apalpemos, como incidências de pequeninas dádivas epifânicas, os minutos que correm, e, dentro de sua órbita de silêncio e fervor, a luz que o sol nos oferta, na simetria inevitável da gratidão cósmica; a passagem da brisa, com sua secreta volúpia e seus desejos invisíveis; o lamento da chuva, com seus translúcidos roteiros que não se cristalizam; o ar “aéreo e sonado”, como diria o poeta, grávido de liames intangíveis, orgasmos e metanóias; a poesia granulada das coisinhas mais miúdas, imperceptíveis, inúteis, descartáveis… Se Deus existisse, era exactamente ali que ele habitaria!

Não seria isso, meus irmãos, um apelo evocativo do milagre?

Roda vida, roda moinho, roda pião: tem dias em que a gente se sente como quem partiu e morreu. Lá vai Chico Buarque soletrando o enigma das palavras, com sua voz inconfundível, o sabor ambíguo das dores do mundo, em sua sabedoria de poeta que canta.

A música é milagre. Ela reside dentro da gente e nos joga, de repente, no miolo espesso do que clama para ser compreendido. Mais do que compreendido, amado, assim como um poema, assim como uma pessoa.

Não abdiquemos dessa doação. Os homens carecem dos homens. Os homens carecem das coisas. Somos iguais. Somos diferentes. Estamos vivos. Isso é único. Isso é milagre!.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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