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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

Amizade

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publicado em 18/04/2021 às 11h49
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Pensei em falar da amizade. O que dizer? Logo agora nesse tempo de pandemia em que estamos distantes e pouco podemos demonstrar nossos sentimentos traduzidos em afeição, simpatia, apreço, relação afetiva, em princípios sem características romântico – sexuais, entre duas pessoas. Constatei que a amizade era cultivada na Grécia como componente importante do ser humano. Ela é um dos temas centrais da filosofia desde o primeiro livro – Ética a Nicômaco, de Aristóteles: “A amizade é uma alma que mora em dois corpos, um coração que palpita em duas almas,” e acrescenta: “Sem amigos, ninguém optaria por viver, ainda que possuísse todos os bens”. Entendia que era um bem valioso e um incentivo para a vida, integrante superior do indivíduo. Nesse momento, como se vive em solidão interior, faz-nos apegar no que vai no fundo do coração como ferramenta a compensar. Então o ombro dos amigos é o lugar para compartilhar as intimidades. Integro um grupo de colegas do antigo curso colegial da turma de 1963. São 58 anos passados e verifico que entre seus membros sobreviveu o espirito de camaradagem e companheirismo verdadeiro, provando que o tempo não conseguiu apagar e as distâncias não existiram. O tempo se eternizou.
Percebe-se, entre as colegas, que umas são mais próximas das outras. Para algumas, o seguimento de estudo foi desde o jardim de infância até o colegial. Na época, o sistema de ensino dividia-se em clássico e científico. Escolhia o clássico quem seguisse letras e ciências humanas; o cientifico, quem ia cursar ciências da saúde ou exatas. Embora as turmas permanecessem juntas, o peso das matérias era diferente. Depois dessa etapa, cada um segue seu destino e as amizades ficam ofuscadas por meio de diversos fatores: profissional, distanciamento social, cargos e encargos que integram a rotina diária, o que nos fizeram distantes. Ontem, na integração do grupo, pude ouvir palavras carregadas de emoção ditas de forma lírica e pura. Cada membro procurando lembrar um gesto, um momento, um lugar, o uso de palavras etc. Diante da perda de colegas, parentes e amigos, este convívio inter-relacional virtual surge como lenitivo de conforto e apoio emocional, nos evidenciando que vale a pena viver. Porque hoje vivemos a expectativa da morte. Vou tentar reproduzir o que ouvi dessas colegas, já realizadas em suas vidas, como pessoas, profissionais e mães de família, mas não esqueceram o que trazem no âmago de sua alma: o sentimento nobre da amizade. A pandemia veio, por incrível que pareça, proporcionar a reaproximação das pessoas. Talvez se não houvesse ocorrido, nunca teriam chance de desnudar suas intimidades e tudo teria passado despercebido. Os amigos são poucos mas são indispensáveis.
Ana Carvalho fala para as colegas: “E o ônibus do Colégio? Quanto corre, corre…Lá vem… Estávamos no Ponto de Cem Reis, aí, vamos nos esconder. As Irmãs freiras desciam, mas tínhamos desaparecido e não dava em nada. Recordei, agora, Clea, do picolé que comprávamos, ele ficava do lado da casa de Lucinha, junto de uma mercearia localizada na esquina, do outro lado da Praça da Independência onde ficava a casa de Simone Carneiro; no lado oposto estava a casa de Zelma Maciel; a casa de Lucinha já era na próxima rua que dobrava. A de Rosimar Rabelo era mais adiante e a de Marina Von Sosten, do outro lado, perto da de Simone. Tenho na memória muita coisa, porque entrei pequena na alfabetização e só sai no final do colegial, foram muitos anos. Comecei a estudar com cinco anos. Passei minha vida toda na casa que ficava em frente a Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), por trás do Orfanato D. Eurico. Permaneci ali até me casar e vir para Aracaju, onde vivo hoje. Todas morávamos próximas e íamos a pé para o Colégio. Quando era pequena minha tia levava e buscava-me. De modo que esse trajeto que fazíamos era um divertimento, caminhar debaixo daquelas mangueiras da rua Maximiano Machado. Era bom demais. Nos dias de chuva usávamos galochas, era moda, íamos saltitando, espalhando a água. Tudo era motivo de alegria e contentamento. Já durante o curso colegial foram incorporadas outras colegas como Maria Vania dos Santos e Terezinha Santos. Os meninos que estudavam no Pio X, quando terminavam as aulas, também se incorporavam a nós. O que não era permitido pelo colégio, mas não se dava ouvido. Quando o ônibus apontava nós nos separávamos todas. Houve um fato quando ocorreu a morte do Papa João XXIII, o Colégio suspendeu as aulas. Era um dia de chuva. Corremos na chuva e ficamos felizes por não haver aulas e sobrar tempo para aventuras e brincadeiras”.
Ao ouvirem os áudios, as colegas dizem voltar no tempo e parece que um filme é rodado permitindo reviver momentos tão prazerosos e inéditos. Trocam fotos antigas, suas e de parentes, rememorando datas e acontecimentos importantes que marcaram suas vidas: batizado, casamento e comemorações em geral etc.
Mª Lúcia Y Plá disse-me: “Regina, você fez a crônica e só falou de Cleinha e sua vida profissional. Desse aspecto não posso falar porque não a acompanhei, mas eu queria dar meu testemunho sobre Cleinha. Enquanto ser humano, eu posso discorrer sobre ela. Ela, eu e Letícia entramos nas Lourdinas semianalfabetizadas. Pequeninas e aí plantamos sementinhas, e juntas fomos até o curso colegial. Convivemos 15 anos e não tenho nada a dizer. Nem eu e nem ninguém, nunca vimos Cleinha tratar grosseiramente e ofender alguém. Sempre foi essa pessoa tranquila, calma e com muita lhaneza. Tenho por ela amizade e amor, não aquele de viver agarrada, junto, pegada mas sei que esse sentimento nós nutrimos uma pela outra. Tanto que no meu casamento ela não foi, como não fui ao dela, mas é uma amizade de raiz. Sempre fui muito próxima de Cleinha e Letícia. Letícia era uma pessoa tão minha e ainda hoje o é. Nós duas fomos reprovadas na segunda série e na mesma matéria, francês. Hoje, na solidão, escondida aqui em casa em Salvador, nessa pandemia, fico recordando… recordando. Estou desembrulhando pacotes que nem pensei, vasculho em minha memória e agora incentivada por esse encontro com vocês tem despertado em mim lembranças incríveis que estavam adormecidas em minha mente. Coisas boas do meu passado que não voltam mais. Cleinha, você lembra que na sua casa tinha um pé de seriguela? Antes não era uma fruta comum, mas eu gostava muito. E você uma vez por outra chegava na minha carteira e deixava o saquinho de seriguela para mim. Eu estive em sua casa debaixo desse pé de seriguela. Letícia e eu éramos as menores da turma, sempre as primeiras nas filas.
Quero dizer que tudo que relatou de Cleinha como profissional eu confirmo e digo sobre o coração dela, que é grande demais…. Demais…. Oh! Cleinha e Letícia! Vivemos juntas diariamente por tempos inesquecíveis. Deus e N. Senhora tomem conta de vocês. Amo todas vocês! Beijo no coração.”
Cleinha responde para Lúcia Y Plá: “ Lúcia, eu estou muito emocionada com o que você disse. Foi lá dentro do meu eu e da minha alma. Como isso me fez bem! Hoje, passei uma contrariedade e isso veio como alento. Você chegar jogando confete desse jeito? Não sabia que você me queria tanto bem, mas você também não sabe o bem que lhe quero. Quantas recordações! Quantas saudades! Quantas coisas boas me vêm no fundo d’alma. Fica aquele filme em minha mente e eu agradecendo sempre a Deus. A nossa amizade que se encontra entrelaçada com nossos familiares. Eu não lembro de ter levado para você o saquinho de seriguela. Mas você me fez feliz com aquele gesto. No Colégio éramos muito amigas. Hoje é tão diferente e sinto que esse nosso grupo possui uma essência diferente. Foi um presente que recebi estarmos nós interagindo. Vou mandar seu áudio para os meus filhos, para saberem e sentirem o que é uma amizade verdadeira. Um beijo carinhoso.”
Letícia entra na conversa e diz: “Lucinha, eu não me esqueço de nada do nosso tempo de Colégio e o que se passou. Lembro de Simone, Zelma e Marina, mas principalmente de você já que fomos o tempo todo juntinhas. Meu apelido era miniatura. Lembra? Lembro de tudo que falou e como recordo! Você não avalia como lhe quero bem. Tenho na memória seu pai, sua mãe, sua irmã. Da sorveteria que havia próximo à sua casa e que íamos tomar sorvete, daquela mercearia em que fazíamos lanches. Da casa de Zelma, que ficávamos conversando. Do último dia de Colégio, das nossas despedidas. Tudo maravilhoso! Como eu amava aquele Colégio! Amava demais aquele colégio! Era ele a minha segunda casa. Muito bom! Acredito que hoje os alunos não sentem 50% do que nós sentíamos: amor pelos mestres e o ambiente escolar. Chega-me a memória aquilo que a IImã Benedita colocava no Quadro de Honra de notas: Comportamento, ordem e polidez. Sempre as notas do comportamento eram 8, às vezes um 9, nunca 10, todavia o restante era 10. Um beijo, amo vocês todas”.
Ao ouvir os diálogos das companheiras, fiquei maravilhada por tê-los provocado. Deixaram-me alegre por sentir a demonstração de amor e de amizade transparentes nas palavras de afeição e apreço com que eram dirigidas de uma para a outra. Parece terem arrancado do âmago para descortinar tamanho testemunho.
São reais esses sentimentos. Foram construídos em bases sólidas sem interesses nem trocas, quando não havia nada a retribuir, nem cargos, nem dinheiro, nada. Existia, sim, e predominava nos corações daquelas jovens, o espirito do companheirismo, da camaradagem, do compartilhar das emoções, dos desejos, do dividir seus segredos do primeiro amor e do despertar para a vida. Isto que está acontecendo nessa interação converte-se em momento inusitado e único. Da pandemia temos que tirar as coisas boas. Se ela não tivesse existido jamais teríamos nos reencontrado e demonstrado, uns aos outros, aquilo que estava armazenado e acalentado há décadas reprimido no nosso coração – a amizade.

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