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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

Repensar o futuro da humanidade

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publicado em 26/02/2021 às 06h33
atualizado em 26/02/2021 às 05h41
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Recentemente, eu li na íntegra um livro do acervo bibliográfico do Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB), que trata do dilema entre o crescimento econômico infinito versus o mau uso dos recursos naturais limitados. O economista paulista Marcus Eduardo de Oliveira escreveu uma obra intitulada “Civilização em desajuste com os limites planetários: homem, economia, natureza: tensões estruturais”, de 2018, com 298 páginas, pela Editora CRV, para o leitor pensar, repensar e agir.

O artigo visa repensar o futuro da humanidade, além de contribuir no debate sobre a economia e a ecologia na atualidade. Na Apresentação do livro, o Prof. Marcus Eduardo (2018, p. 15) revela que, “(…) há um contingente de 80% de habitantes do planeta – 6 bilhões de pessoas – vivendo em consideráveis dificuldades, enfrentando diuturnamente problemas de ordens múltiplas”. O autor escreveu a sua relevante obra antes da pandemia da COVID-19 e dos impactos socioeconômicos da recessão de 2020, ambas praticamente triplicaram o desemprego, a pobreza, a miséria, a fome e a desigualdade.

A economia tradicional versus a economia ecológica é um dos temas tratados no onze capítulos do livro. Ainda na Apresentação, o Professor Marcus Eduardo (2018, p. 19) destaca que, “A economia ocupa atualmente a posição de ciência principal dos assuntos humanos”. Em sua pertinente obra, vários economistas estrangeiros e brasileiros são citados. Entre os economistas estrangeiros, destacam-se, Alfred Marshall, Karl Marx (foto), James Buchanan, John Kenneth Galbraith, Thomas Piketty, Amartya Sen, Irving Fischer, Joseph Stiglitz, Joseph Schumpeter, James Meade, Adam Smith, Robert Solow, David Ricardo, John Stuart Mill, Ignacy Sachs e John Maynard Keynes. Já entre os economistas brasileiros, destacam-se, Eduardo Giannetti, Edmar Bacha, Laura Cardoso, Ladislau Dowbor, André Lara Resende, Celso Furtado e Cristovam Buarque.

O excesso populacional impacta a voracidade consumista na economia global. Em 1804, a população mundial era de 1,0 bilhão de habitantes. Hoje, 217 anos depois, é de 7,8 bilhões de pessoas. O autor (2018, p. 50) apresenta a pirâmide social brasileira composta por classes econômicas distintas, a classe A (a mais rica), classe B1, classe B2, classe C1, classe C2, classe D e classe E (a mais pobre) e revela que, “O número percentual de pobres e em situação abaixo da pobreza (classes D-E), portanto, fora do raio de “consumo”, é de 26,6%”. A maioria dos brasileiros reúne-se na classe C (a classe média).

O filósofo e economista escocês Adam Smith, o fundador da Economia Moderna, é um dos mais citados e mais criticados no livro. De acordo com o Professor Marcus Eduardo de Oliveira (2018, p. 90), “(…) não apenas fica a impressão de que regressamos ao tempo de Adam Smith (século 18), mas que, na verdade, de lá nunca saímos. De tal modo que vale enfatizar: é notado com absoluta nitidez o princípio da “mão invisível” se consolidando no momento em que os interesses individuais começam a ser perseguidos, o que contribui, ao menos no plano teórico, para a conquista de interesses coletivos”. O pensamento econômico evoluiu desde o pensamento liberal de Adam Smith no séc. XVIII até os novos paradigmas como a Economia Criativa e a Economia Circular no séc. XXI.

Em seguida, o Professor Marcus (2018, p. 129), menciona Adam Smith, o fundador do liberalismo econômico, “O que se sabe é que, desde Smith, o que dá legitimidade à economia como a conhecemos é a busca individual do interesse próprio”. Posteriormente, o Prof. Marcus (2018, p. 131) ressalta que, “A rigor, mencionemos uma vez mais A. Smith. No clássico, “A Riqueza das Nações” (1776), o ex-professor de filosofia moral nos lembra que “onde quer que haja grande propriedade, há grande desigualdade. Para cada pessoa muito rica deve haver no mínimo quinhentos pobres, e a riqueza de poucos supõe a indigência de muitos”. A desigualdade socioeconômica ainda se mantém, atinge o seu maior patamar no século XXI e é um dos maiores problemas da economia global.

O Prof. Marcus (2018, p. 154), critica que, “Mesmo à economia, desde seus primeiros passos enquanto ciência, datado rigorosamente a partir de Smith, 1776, ignora, em termos de defesa analítica, o assunto “limites”. Aliás, essa é uma palavrinha pela qual os economistas tradicionais (clássicos, se assim, preferirmos) sentem certa aversão. A honrosa exceção fica à cargo de David Ricardo (1772-1823), com a sua teoria sobre os rendimentos decrescentes da terra”. Os desastres climáticos (enchentes, secas, furacões, tufões, tsunamis, etc.) afetam a produção, consumo e preço de bens e serviços, e sobretudo, o custo da tragédia com perdas humanas é irrecuperável. Em 2004, o Tsunami no Oceano Índico provocou mais de 230 mil mortos. Em 2005, o Furacão Katrina, nos EUA, cerca de 2 mil mortos. O Prof. Marcus (2018, p. 169-170) revela que, “Embora a ciência econômica, desde que entrou em cena como “corpo de teoria” (em 1776, com a publicação de “A Riqueza das Nações”), tenha surgido com uma forte preocupação social, presume-se que desde muito se afastou desse pressuposto axial, inclinando-se de forma direta às diretrizes do mercado, do capital, da produção material, da monetarização; (…)”.

Entre os defensores da bioeconomia, destaca-se, o economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), o fundador da Economia Ecológica, com a sua obra-prima A Lei da Entropia e o Processo Econômico, de 1971, o pioneiro na preocupação com a degradação ambiental em decorrência do crescimento econômico sem limites, com sérias consequências para as atuais e futuras gerações. Conforme o Prof. Marcus (2018, p. 74), outro defensor da Economia Ecológica é “(…) o economista francês François Partant (1926-1987), autor de La fin du developpment (O fim do desenvolvimento) e um dos primeiros defensores da noção de decrescimento”. O decrescimento significa consumir menos para que todos vivam melhor, diminuir a velocidade do crescimento econômico para preservar os recursos naturais finitos e criticar uma sociedade cada vez mais consumista de uma enorme variedade de produtos supérfluos.

Para o Prof. Marcus (2018, p. 176), “(…) o decrescimento faz um chamado para abolir a política do crescimento como objetivo social a partir da tentativa de desmonte da estrutura (e da lógica) atual da economia global”. O polêmico decrescimento é a opção para a Economia Ecológica que visa “abordar a economia como subsistema do ecossistema” (WEETMAN, 2019, p. 468). O economista ecológico Marcus Eduardo (2018, p. 195) alerta que, “Por um lado, como exaustivamente sinalizamos, predomina o consumo material excessivo engendrado por uma pequena parcela populacional. Por outro, tem-se que a capacidade de sustento da Terra é limitada (finita)”. A degradação ambiental tem graves implicações na qualidade de vida e o desmatamento e as queimadas da Floresta Amazônica são cada vez maiores no Brasil. É primordial proteger a maior floresta tropical do planeta para absorver CO2 da atmosfera e liberar O2.

No Dicionário de economia do século XXI, do Prof. Paulo Sandroni (2014, p. 196), crescimento econômico significa um “Aumento da capacidade produtiva da economia e, portanto, da produção de bens e serviços de determinado país”. Robert Solow é um dos economistas dedicados aos estudos sobre o crescimento econômico. Os economistas ecológicos preferem estudar o decrescimento (décroissance, em francês). O autor da obra como ativista ambiental apresenta as fronteiras planetárias e suas nove dimensões centrais para manter uma vida decente para o homem e o meio ambiente que são as mudanças climáticas, perda de integridade da biosfera, depleção da camada de ozônio estratosférica, acidificação dos oceanos, fluxos bioquímicos, mudança no uso da terra, uso global de água doce, carga atmosférica de aerossóis e introdução de novas entidades.

O Brasil tem seis biomas, a Mata Atlântica (o mais devastado dos biomas desde o descobrimento do Brasil), Caatinga, Pampa, Cerrado, Pantanal e Amazônia (o maior dos biomas brasileiros). Entre os economistas ecológicos não citados na obra, penso no economista ecológico pernambucano Clóvis Cavalcanti, ex-presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, grande defensor do TGV no continental Brasil, da redução das emissões de gases de efeito estufa e do uso das energias renováveis, como solar e eólica. Outra ausência foi do economista ecológico americano Herman Daly, um dos criadores do Índice de Bem-Estar Econômico Sustentável (IBES), que mede o progresso socioeconômico em substituição ao Produto Interno Bruto (PIB). O PIB é o principal indicador econômico, é o “valor agregado de todos os bens e serviços finais produzidos dentro do território econômico de um país” (SANDRONI, 2014, p. 649), além de “vaca sagrada dos economistas”, segundo o célebre economista paraibano Celso Furtado (1974, p. 115), no livro intitulado O Mito do Desenvolvimento Econômico.

É importante destacar a frase de entusiasmo do Prof. Marcus (2018, p. 291), “Cabe construirmos, juntos, e de forma imediata, uma economia que dialogue com os princípios da ecologia”. Não sobreviveremos no planeta sem aumentar a produção e a produtividade dos alimentos, sem evitar desperdício e poluição de forma planejada. Mais inovações, mais solidariedade para alimentar a humanidade que já alcançou 7,8 bilhões de habitantes em 2021 e a ONU estima que a população mundial alcançará 9,7 bilhões de pessoas em 2050. Enfim, é preciso repensar o futuro da humanidade para vivermos melhor na Terra.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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