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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: marcos@piresbezerra.com.br

A última sustentação oral de Cardoso A

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publicado em 02/01/2020 às 07h07
atualizado em 01/01/2020 às 21h09
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Jamais encontrei qualquer colega advogado que tivesse um mínimo de reparo a José Alves Cardoso. E olha que assim como eu, Cardoso era totalmente advogado, ou seja, não tinha nenhuma outra fonte de renda para sustentar a família. Portanto, seria natural que ao longo da carreira tivesse colecionado uma meia dúzia de desafetos. Qual o quê! Sua simpatia e sua humildade conquistavam todos.

Tenho umas dez boas histórias de Cardoso, todas reais e conferidas pessoalmente com ele, mas a que mais me fascinou deu-se no início de sua carreira. Havíamos sido colegas de curso na UFPb, portanto era natural que continuássemos o bom relacionamento depois de formados, o que me fez acompanhar nos primeiros anos sua atuação na Câmara Criminal do nosso Tribunal de Justiça. Só que como todo recém formado, as causas que chegavam para Cardoso eram puro osso. De outra banda a composição da Câmara Criminal era muito rigorosa. Se não me engano à época estavam por lá os Desembargadores Miguel Levino, Manuel Taigy, Josias Pereira e outras feras. Portanto foi até normal que nas nove primeiras sustentações em Habeas Corpus meu amigo Cardoso tivesse perdido todas. Inteligente, sabido, ardiloso, eis que Cardoso foi à tribuna para fazer a sustentação oral em seu decimo Habeas Corpus. Começou agradecendo a paciência e a atenção que os julgadores haviam tido com ele nos casos anteriores e estava ali só para se despedir, porque depois de nove derrotas em dois anos decidira deixar a advocacia. Iria se dedicar ao comercio. Foi por aí até que, quase ao final, referiu-se ao caso em julgamento, demostrando que seu cliente era inocente. Como se tratava de um crime de pequenas proporções e realmente havia razão no que ele dizia, os Desembargadores concederam a ordem e libertaram o cliente de Cardoso, porém eu penso até hoje que pesou na decisão o discurso de despedida do meu amigo.

Eis que na semana seguinte, anunciado o primeiro processo, quem vai à tribuna efetuar a sustentação oral? Pois é; José Alves Cardoso. Foi indagado pelo Presidente da Câmara: “- Mas Dr. Cardoso, o senhor não disse que aquela sustentação oral da semana passada era a sua última, que iria deixar a advocacia?”. Cardoso deu um daqueles sorrisos fáceis que lhe caracterizavam e emendou: “- Excelência, deixar como, agora que eu comecei a ganhar?”.

Semana passada o amigo fez sua última sustentação oral. Ganhou o direito à paz e à morada divina.

 

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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