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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertobarbosa@bol.com.br

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publicado em 21/10/2020 às 06h02
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Tia Dona enviuvou logo cedo. Nem contava trinta anos nem tivera filhos. Desde então, nunca mais saiu de casa; sequer se achegava à janela para espiar o sossego da rua. Do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal, eis o itinerário que percorria no ramerrão do silêncio e da solidão a que se decidira entregar “de corpo e alma, completamente”. O único refrigério do espírito – tudo me leva a crer ainda hoje – consistia num meticuloso cultivo de romãs, a transformar o pequenino terreno baldio do quintal num pomar uniforme, impregnado do agreste perfume daquelas frutas sagradas. Sim, também se alimentava com a leitura diária de uma velha Bíblia, curioso espólio de seus antepassados, e em cujas páginas como que inscrevia a trama secreta daquele mistério. Viveu assim até os setenta anos, na companhia de si mesma, indiferente aos chamados do mundo, invisível e encantada, não sei se na paz do Senhor ou se na guerra inevitável da vida e dos homens.

Biu Marcolino dividiu comigo a carteira do grupo escolar Major José Barbosa. Nem mal concluíra o primário, largou os estudos para cumprir o destino de criador de gado, à semelhança do pai, do avô e do bisavô, matutos arrimados no gosto da labuta do curral, no cheiro inesquecível do esterco e na cerimônia matinal da ordenha das vacas de leite. Desde menino até hoje, num ritmo que se repete em estranha monotonia, Biu Marcolino, já passando dos sessenta, acorda todos os dias, de domingo a domingo, às quatro da matina, e sai para uma terrinha que possui, voltando sempre à boca da noite, num cavalo bom e baixeiro. Seu mundo são as suas vacas, suas vacas são as suas estrelas. Nunca viajou, não conhece cidades, não anda de carro, não tem celular, não fuma, não bebe, não faz outra coisa a não ser cuidar de suas vacas. Amar e amar as suas vacas como se ama as criaturas que existem fora do tempo e numa esfera que é mais do sonho e da fantasia do que da bruta e inóspita realidade.

Meu avô Miné tinha os olhos claros e as mãos calejadas. Viveu quase cem anos e sem o desconforto das doenças do mundo. Sua morte se deu por falência múltipla dos órgãos, sem alardes, sem prantos e sem lamúrias. Gastou toda sua longa vida no trato da terra, no cabo da enxada, preparando os roçados de milho e feijão para as bênçãos aquáticas dos magros invernos de meu Cariri. Falava pouco, não se alterava com nada e só se interessava pelos hectares de terra que possuía, como a única volúpia a que se dava o direito numa vida medida e regrada entre a casa e o trabalho, e nada mais.

Zé da Maleta (foto) era o doido da cidade. Segundo os mais velhos, viera dos lados de Pernambuco, abandonado que fora pelos caprichos de mulher bonita e leviana. Nem a música, que cultivara com gosto e refinamento, evitou a tragédia da loucura. Careca, baixinho, musculoso, ganhava a vida carregando sacos de cereais pelas ruas do comércio. Cara fechada, não se relacionava com ninguém. Às vezes, pelos becos e esquinas, ouviam-se seus grunhidos sombrios, seus monólogos soturnos, seus lamentos assustadores. Insultado, sobretudo pela meninada, (“Corninho da calça curta!”), ficava agressivo e vociferava os palavrões mais cabeludos… Não estive no seu enterro, mas todos me asseguraram que foi o maior de toda a história da velha Comarca.

Estas criaturas e estas lembranças não passam. “O tempo desapiedado”, que a tudo rói e arruína, jamais apagará de minha memória. Não são páginas dos livros que amo, mas, como as melhores páginas dos livros que amo, ainda hoje me causam a mais forte impressão.

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