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Jornalista. Ex-repórter do Portal MaisPB e de outros sites de João Pessoa-PB. Pessoense residente em São Paulo. Observadora da vida, gosta de contar histórias em primeira pessoa. Contato: naira.di.lorenzo@gmail.com

Você conhece alguém que morreu de Covid-19?

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publicado em 11/06/2020 às 07h19
atualizado em 11/06/2020 às 06h53
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Sexta-feira fui à feira livre, feira mesmo, a de rua, nada de mercado, hipermercado ou supermercado. É a primeira vez que vou à feira nessa quarentena. Aqui em São Paulo ela não foi proibida em nenhum momento, mas eu estava evitando sair até para passear com minha cachorrinha. As compras do mercado, que sempre fiquei à frente, tornaram-se mais uma das obrigações do meu esposo, que sendo médico, não pode ficar em casa.

Antes de sair todo um ritual, novo, enfadonho, mas necessário. Prendi os cabelos, lavei bem as mãos e optei por roupas fechadas, o que felizmente combinou com o frio do dia. Chamei Lola (a cachorrinha) e, além da coleira, pus nela um novo adereço: meias para as patinhas. Ela não gostou e eu a entendo, também não gostei de trocar a maquiagem por uma máscara, mas mesmo assim, a vesti e assim saímos, devidamente paramentadas.

Pelo horário que fui, quase meio dia, a feira estava tão cheia quanto antes da quarentena. As pessoas andavam de um lado para outro puxando seus carrinhos de compras, carregando suas sacolas, conversando com os feirantes despreocupadamente. Não havia distanciamento social e, caso não fosse pelo uso das máscaras – esse novo enfeite universal -, eu nem teria lembrado que estamos vivendo uma pandemia.

Eu sabia exatamente o que precisava comprar e quais as barracas deveria ir, já conheço décor o caminho de cada uma e mesmo com a nova vestimenta foi fácil reconhecer os vendedores. Comecei pela de peixes, segui para a de legumes e depois passei na de bananas, que por sorte logo ao lado tinha uma nova barraca de coco ralado que tanto queria para comer na tapioca.

Na sacola já havia quase tudo que precisava, por fim, faltava apenas ir na barraca de ovos. Cheguei e lá eu fui trazida de volta a realidade. Uma realidade que desconserta, intriga e até assombra. Após pedir uma dúzia de ovos caipiras ao vendedor, resolvi comentar como a feira estava abarrotada. Ele não achou. Disse que estava com um fluxo “normal” e arrebatou com um comentário que concordo: “Ninguém aguenta mais ficar em casa”.

De fato, não há quem aguente mais ficar em casa, mas é necessário e, neste momento, vital. Era o que eu pensava enquanto ele falava. O feirante continuou. “É muito difícil, é muita informação e a mídia traz mortes demais”. Ele falava e eu ficava apreensiva pelo o que mais poderia ser dito.

Ele não parou e me questionou: “Você conhece alguém que tenha morrido de coronavírus?” Respondi tão logo quanto a pergunta: “Não”. E aquele homem a quem compro ovos há tanto tempo fez uma cara de satisfação.

O que me pareceu é que por não ter acontecido nenhuma morte dos próximos a ele ou a mim, para ele a doença – que mata milhares de pessoas todos os dias – não existe. Não o critiquei, apenas acrescentei a minha resposta: “Não, não conheci ninguém que tenha morrido de covid-19, mas minha colega que perdeu o irmão, sim, meu esposo que perdeu um amigo de infância, sim, minha sogra que perdeu o médico que colocou seus filhos no mundo, sim.”

Se nós imaginarmos que cada um que morreu por ter contraído esse vírus conhecesse uma única pessoa, teríamos então quase 40 mil pessoas só no Brasil que conhece alguém vítima da covid-19. Ao feirante, eu citei apenas três vidas que foram perdidas, mas sabemos que são milhares delas. Vidas reais, vidas interrompidas por uma doença nova e devastadora, que em poucos meses ceifou sonhos e planos de mais de 400 mil homens e mulheres (segundo dados da Organização Mundial de Saúde) pelo mundo.

Ainda falei dos amigos que pegaram a doença, dos amigos dos meus amigos, do meu cunhado e por fim da avó do meu esposo que até poucos dias estava internada em um hospital lutando contra a doença, mas que venceu e agora está curada. Pelo o olhar, o feirante pareceu ter entendido.

O vai e vem das pessoas me lembrou que com aquele tanto de gente o vírus, provavelmente, ali circulava. Peguei os ovos e com Lola voltei para casa. No caminho rezei baixinho para não ser a próxima conhecida de alguém por ter pego (fatalmente) o tal do coronavírus, rezei para não ter conhecidos mortos pela doença e para que mais ninguém perca seus conhecidos para ela.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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