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Professor da Faculdade de Direito da UFPB, procurador-chefe da Força-tarefa do Patrimônio Cultural do Ministério Público de Contas da Paraíba. E-mail: mfilho@tce.pb.gov.br

Epitácio encontra Machado de Assis no Rio

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publicado em 27/05/2020 às 14h51
atualizado em 27/05/2020 às 11h53
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Nem peste nem epidemia. Falemos de outras coisas.

Em 15 de novembro de 1898, Epitácio Pessoa, então com 33 anos de idade, é nomeado Ministro da Justiça e dos Negócios Interiores pelo Presidente Campos Sales. Ficaria no cargo até 1901. Logo depois, seria indicado ministro do Supremo Tribunal Federal. A Justiça era, naquela altura, um superministério, cujas atribuições abarcavam, para além dos habituais temas jurídicos e legislativos, toda a área de saúde e educação nacionais.

Em dezembro de 1900, o jovem ministro é designado para um desafio adicional: responder, durante alguns meses, interina e cumulativamente, pelo Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, após o titular, Alfredo Maia, sair de licença.

Ao chegar no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, Epitácio encontrou, como secretário ministerial, ninguém menos do que Joaquim Maria Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho já era um intelectual sexagenário que trazia no currículo os êxitos literários de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899). A Academia Brasileira de Letras havia sido fundada anos antes, em 1896, e Machado acumulava aquele cargo público com a presidência da ABL, eleito que fora por aclamação dos confrades. Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço, também trabalhava no mesmo ministério.

Na verdade, Machado e Epitácio já se conheciam. Em carta endereçada ao escritor José Veríssimo, datada de 3 de dezembro 1898, Machado narra que fora apresentado ao Ministro da Justiça poucos dias antes, por Rodrigo Otávio, para tratar de assuntos da ABL. Em outra correspondência, de 28 de novembro 1900, destinada ao intelectual Lúcio de Mendonça, Machado conta: “Há dias encontrando-me com o Epitácio, falei-lhe de passagem sobre o projeto, mas não há intimidade entre nós, e estávamos com outras pessoas.”

Poucos dias depois dessa carta, Pessoa assumiria a interinidade no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas. A nova rotina era puxada: Epitácio costumava, pela manhã, dar expediente na Justiça, onde dava conta de pautas como o projeto de novo código civil, a reforma do ensino e o combate à peste bubônica. À tarde, seguia para o Ministério da Indústria, onde o secretário Machado de Assis lhe fazia minuciosas exposições sobre cada tema da pasta, apresentando-lhe, em seguida, minutas literárias dos despachos.

O hiperativo paraibano, veraneando em Petrópolis para fugir do infernal calor carioca, desde logo não se deu muito bem com o temperamento de Machado de Assis, demasiado meticuloso, reservado e cerimonioso. Enfadado, Epitácio queria sempre apressar e abreviar as exposições machadianas daquela interinidade, a fim de adiantar o serviço e não perder a barca que o levaria até a estação ferroviária de onde pegaria o comboio para Petrópolis. Algumas vezes perdeu a segunda barca, só tomando a terceira e chegando à residência pretropolitana já tarde da noite.

Num dia de menos paciência, quando o calor o abraçava como um velho amigo de Umbuzeiro, disse de Machado: “Grande escritor, mas péssimo secretário!” Nos arquivos pessoais de Epitácio, há uma carta ao Dr. José Vieira, datada de abril de 1939, em que rememora o episódio:

“Via-me obrigado a descer todos os dias pelo trem da sete e meia e, às vezes, pelo das seis horas da manhã. Despachados os papéis do Ministério da Justiça, encaminhava-me eu, depois do almoço, para o da Viação, de cujo titular Machado era o secretário. Reunido com certa morosidade o volumoso e variado expediente, levava Machado de Assis a peito trazer-me uma exposição verbal de cada assunto e ler-me em seguida todas as informações e pareceres da Secretaria. Isto me desfalcava sensivelmente o tempo reservado à Viação, tanto mais quanto o secretário, com certa dificuldade natural de expressão, acompanhava não raro a sua leitura de observações, comentários e argumentos próprios. Sugeri-lhe o alvitre de ler eu mesmo os papeis mais importantes e levar comigo os demais, que eu examinaria nas quatro horas diárias de viagem a que estava obrigado. Não aquiesceu: Era o sistema do ministro efetivo e a sua função de secretário. Pareceu-me mesmo que se sentiu um tanto melindrado, o que foi bastante para que não insistisse, preferindo a fadiga a que ia expor-me, ao risco de desgostar quem me inspirava tanta simpatia, respeito e consideração e criar uma situação de ressentimento entre mim e o ministro efetivo, meu colega e amigo. Durante o tempo que substituí o Dr. Alfredo Maia, nunca pude voltar a Petrópolis pela barca das quatro horas. Mal podia alcançar a das cinco e meia, para chegar ali às oito horas da noite, verdadeiramente extenuado. O resultado foi que não pude imprimir ao expediente do Ministério da Viação a mesma rápida marcha do Ministério da Justiça. É verdade que uma vez, em conversa, qualifiquei Machado de Assis, não de péssimo funcionário, mas de péssimo secretário. Esta qualificação, talvez um tanto severa demais, fundava-a eu na falta de método e na demora e confusão de que se ressentia a sua ação no preparo, exposição e despacho no expediente do Ministério da Viação, pelo menos durante os três meses que ali serviu como meu secretário. Desnecessário é dizer que nesse juízo nenhuma intenção houve de envolver de qualquer sorte a reputação ou o caráter de Machado de Assis, por quem, como disse, sempre tive a maior simpatia, consideração e apreço, antes, durante e depois do período em que trabalhamos juntos.”

Por certo o gênio fundador da Academia Brasileira de Letras, falecido desde 1908, não haveria de ralhar com o futuro presidente da república. Com sua reconhecida ironia, concluiu certa feita em “Iaiá Garcia” (1878): “Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, a que ia expor-me, ao risco de desgostar quem me inspirava tanta simpatia, respeito e consideração e criar uma situação de ressentimento entre mim e o ministro efetivo, meu colega e amigo. Durante o tempo que substituí o Dr. Alfredo Maia, nunca pude voltar a Petrópolis pela barca das quatro horas. Mal podia alcançar a das cinco e meia, para chegar ali às oito horas da noite, verdadeiramente extenuado. O resultado foi que não pude imprimir ao expediente do Ministério da Viação a mesma rápida marcha do Ministério da Justiça. É verdade que uma vez, em coversa, qualifiquei Machado de Assis, não de péssimo funcionário, mas de péssimo secretário. Esta qualificação, talvez um tanto severa demais, fundava-a eu na falta de método e na demora e confusão de que se ressentia a sua ação no preparo, exposição e despacho no expediente do Ministério da Viação, pelo menos durante os três meses que ali serviu como meu secretário. Desnecessário é dizer que nesse juízo nenhuma intenção houve de envolver de qualquer sorte a reputação ou o caráter de Machado de Assis, por quem, como disse, sempre tive a maior simpatia, consideração e apreço, antes, durante e depois do período em que trabalhamos juntos.”

Por certo o gênio fundador da Academia Brasileira de Letras, falecido desde 1908, não haveria de ralhar com o futuro presidente da república. Com sua reconhecida ironia, concluiu certa feita em “Iaiá Garcia” (1878): “Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço”.

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