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Formado em Psicologia e Especialista em Psicopatologia Psicanalítica Contemporânea pela Universidade Federal da Paraíba. Atuou na área clínica, na saúde mental e hospitalar. Exerceu o mandato de Vereador em João Pessoa por duas legislaturas e atualmente é Secretário de Transparência Pública da Prefeitura Municipal de João Pessoa.

O doce mistério de Belchior

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publicado em 01/05/2018 às 16h54

Foi ele mesmo quem nos disse que na divina comédia humana, nada é eterno…. Mas depois de um ano da sua morte, a obra de Belchior continua viva, eternizada por várias gerações, até as que não tiveram a oportunidade de vê-lo nos palcos. Antes mesmo da sua morte, já era perceptível o aumento nas regravações de suas composições por diversos artistas e bandas que vão da MPB, passando pelo reggae, rock e chegando a estilos musicais ecléticos. Se multiplicam as releituras, tributos e as gravadoras se esforçam para relançar sua obra.

Belchior carregou durante muito tempo as marcas da metrópole, que como seu coracão, não podia parar, o coração que era selvagem e tinha pressa de viver mas que nos deixou enigmas, questões, lacunas. A cada um cabe dizer o lado que nasce o sol. A busca daquilo que nos causa não pode cessar, foi assim com ele, que foi pouco entendido quando na sua juventude fez a escolha improvável de entrar no seminário e aprofundar estudos em teologia. Depois de algum tempo, abdicou do seminário e voltou ao convívio social e familiar, sempre com crescente interesse em cantar, amar e mudar as coisas.

E quando todos achavam que o caminho acertado era o curso de medicina, no último ano ele “abandona a escola pra cantar em cabarés” e se dedica de vez à carreira musical. Surge então um dos maiores compositores da MPB, que fez poesia e melodia cantando a sua dor, a sua história, aquele canto torto, que feito faca corta a carne…. O recado estava dado em Conheço o meu lugar: “fique você com a mente positiva, eu quero é a voz ativa, ela é que é uma boa…”.

Dentre tantas escolhas, a mais enigmática não foi contada. Apenas vivenciada no sertão da sua solidão. Belchior se recolhe e passa a viver longe dos palcos, dos estúdios e da própria família. Um misto de incompreensão e perplexidade rondam seus últimos dez anos de vida, alternando moradas em Porto Alegre e outras pequenas cidades do interior da região sul, além de passagens pelo Uruguai na companhia da sua então esposa, Edna Prometheu. Os relatos das pessoas que os acolheram nas andanças do autoexílio a apresentam como alguém que tentava esconder o companheiro como quem guardava um tesouro, inacessível à grande legião de fãs e admiradores e distante da mídia policialesca que em diversas ocasiões o reduziu à um caso de polícia.

É interessante perceber a forma arrebatadora que esta relação assumiu na última fase da carreira de Belchior. Coisas que talvez nem o analista amigo dele entenda. Aliás, em seu livro Apenas um rapaz latino americano, o jornalista paraibano Jotabê Medeiros relata a reflexão trazida por Barbosa Coutinho, o psicanalista cearense citado em Divina comédia humana. Ao presentear Belchior com uma edição das obras completas de Freud, foi surpreendido por um interesse aguçado do artista pelo Caso Schereber¸ onde Freud analisa a partir da autobiografia de Paul Schereber, presidente da corte de apelação de Dresden, a paranoia, os delírios de perseguição e a complexa articulação com os fenômenos inconscientes que possibilitam a partir da própria construção delirante, uma certa estabilização e apaziguamento da paranoia.

Mas Belchior não se contentou apenas com a análise Freudiana do Caso Schereber e solicitou de Barbosa Coutinho o acesso às memórias escritas pelo próprio Schereber. O psicanalista ainda chama a atenção para a imensa família de 23 irmãos e as dificuldades de Belchior em busca de suas matrizes identificatórias, relatando também em outra ocasião um “sumiço” do irmão mais velho dos Belchior, que resolveu de forma abrupta deixar o convívio familiar, retornando somente depois de 30 anos.

E foi já durante o autoexílio uma das últimas aparições nos palcos, em 2009 durante um show de Tom Zé onde estava como expectador. O cantor Belchior é chamado ao palco e com a plateia em êxtase canta a música Doce Mistério da Vida, originalmente gravada por Victor Herbert e composição de Rida Johson Young de 1910 (Ah! Sweet Mystery of life). A versão nacional da música foi gravada inicialmente por Alberto Ribeiro, médico e compositor carioca, autor de várias marchinhas de carnaval. A música posteriormente foi regravada por Maria Bethânia e Caetano, Moacyr Franco e também por Belchior no álbum Vício Elegante, lançado em 1996 e dedicado à releituras e interpretações de canções de outros artistas.

Foi curioso o fato de Belchior ter escolhido esta canção, enquanto qualquer um da plateia esperava uma música de sua autoria, algumas das canções que tocaram no rádio e no alto falante, mas os poucos e intensos versos de Doce Mistério da Vida era o que ele tinha pra dizer…

Minha vida que parece muito calma

tem segredos que eu não posso revelar

escondidos bem no fundo de minh’alma

não transparecem nem sequer em um olhar

Vive sempre conversando a sós comigo

uma voz que eu escuto com fervor

escolheu meu coração pra seu abrigo

e dele fez um roseiral em flor

A ninguém revelarei o meu segredo

e nem direi quem é o meu amor…

(DOCE MISTÉRIO DA VIDA, Vício Elegante, 1996)

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