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Entrevista MaisPB

Artista gaúcho Deluce lança ‘Descansadão’ com Eva Rocha, filha de Glauber Rocha

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publicado em 14/02/2026 ás 11h54

Kubitschek Pinheiro

O compositor gaúcho Deluce vai lançar em março novo álbum “Pimenta”, dez anos depois. O primeiro single dessa retomada é “Descansadão”, com participação especial de Ava Rocha, (filha do cineasta Glauber Rocha), uma canção que é a cara Brasil despedaçado.

“Descansadão” está nas plataformas digitais, com distribuição do selo Loop Discos. Acompanhado de um clipe, a faixa abre a contagem regressiva para a chegada de Pimenta

Ex-vocalista da banda indie Cartolas, Deluce constrói no disco uma narrativa organizada em três eixos: Trauma, Amor e Máscara. Em conjunto, o disco apresenta fragmentos do artista, da infância marcada por episódios de bullying à formação de uma persona defensiva na vida adulta – poesia, ironia e tensão teatral. Deluce define o projeto como uma espécie de ópera burlesco-tropical.

A letra parte de uma sacada direta: a indisposição para travar discussões – sejam elas políticas ou não – em ambientes hostis, onde o argumento racional cede espaço às paixões. Nesse cenário, ficar de boa surge como uma forma pacífica de protesto, ao se recusar a botar mais lenha na fogueira.

Durante o processo de gravação, Deluce percebeu que a música dialogava diretamente com o universo da cantora e fez o convite, prontamente aceito. O encontro amplia o tom dramático da faixa e ajuda a regular o clima do disco.

O videoclipe, codirigido por Gabriel Manso e Jus Nino, acompanha esse espírito e opta por registrar o que, para Deluce, foi essencial no nascimento da música: o estúdio, o encontro e o gesto.

MaisPB – “Descansadão’ é o máximo – parece um filme 3/4 do Brasil – as frases cortantes, diretas e ainda tem o som do rádio ou tv, não sei. Vamos começar por aqui?

Deluce – Fico feliz que tenha gostado e acho ótima sua leitura, porque a música tem mesmo esse clima meio colagem. Descansadão é uma canção que expressa indisposição para travar discussões em um ambiente hostil, onde o argumento racional é deixado de lado e dá lugar às paixões. Na era dos haters, ficar “descansadão” pode ser uma boa forma de protesto, uma recusa a esse jogo de agressividade.

MaisPB – Dez anos sem lançar um novo trabalho, por que tanto tempo?

Deluce – Foram muitos fatores. Durante esses 10 anos, aprendi muita coisa e creio que este álbum não teria sido possível para o Deluce de 2016. Hoje tenho mais maturidade e mais coragem para tocar em feridas reais, como bullying, traumas de infância e conflitos internos. Além disso, houve também um certo bloqueio em relação ao mercado. Por muito tempo achei que lançar um disco hoje seria como jogar uma garrafa no oceano, com tanta música sendo lançada todos os dias.

MaisPB – Adorei o nome do disco Pimenta que será lançado em março – é bem apimentado mesmo?

Deluce – É apimentado tanto no sentido emocional quanto no estético. Não é um disco confortável o tempo todo. Tem ironia, humor, amor, mas também dor, raiva e contradição. A pimenta, para mim, tem a ver com isso. Arde, mas também dá mais sabor. Quando decidi compor o álbum, percebi que não haveria termo melhor e mais carregado de significado para defini-lo.

MaisPB – Você define o projeto como ópera burlesco-tropical – até lembra as coisas de Arrigo Barnabé?

Deluce – Total, faz todo sentido essa associação. Uso esse termo mais como uma brincadeira do que como um rótulo sério. Gosto dessa ideia do exagero, do bobo da corte que pode dizer verdades por meio do deboche, já que é o único na corte que pode falar mal do rei. Arrigo, Tom Zé e toda essa turma sempre me influenciaram justamente por misturar humor, provocação e crítica. O burlesco-tropical é isso. Brasileiro, irônico, meio debochado, mas ao mesmo tempo falando sério.

MaisPB – O videoclipe ficou muito bom, você e Ava Rocha estendem a velocidade da canção, não é, aliás, como veio a ideia de convidá-la para cantar juntos?

Deluce – A Ava entrou de forma muito natural. Durante os arranjos, percebi que a música tinha muito a ver com o universo dela, com essa dramaticidade e essa presença forte. Eu já admirava o trabalho dela há anos, desde que ouvi Ava Patrya Yndia Yracema pela primeira vez. Por coincidência, alguns músicos que gravaram comigo também haviam gravado com ela, o que facilitou o contato. Mostrei a música, ela curtiu e topou. No clipe, essa sensação de entendimento e de deixar a música respirar tem muito a ver com o clima do estúdio. Quis registrar esse encontro como um momento real. É mais sobre a nossa energia e o processo.

MaisPB – Tem uma canção sobre episódios de bullying? Quer falar disso?

Deluce – Tem, sim. A música O Bullying fala de experiências reais da minha infância. Durante muito tempo senti vergonha de falar disso, como se admitir que sofri bullying fosse assumir uma fraqueza. Hoje me vejo diferente. Revisitar isso foi doloroso, mas também libertador. Foi quase um exercício de autoterapia. É como se o Deluce adulto pudesse acolher aquele menino que foi humilhado e se sentia menor. Acho que muita gente se identifica com isso, mesmo que não fale sobre o assunto.

MaisPB – Já cantou pelo Nordeste?

Deluce –Toquei poucas vezes no Nordeste, mas espero que isso mude agora. Tenho uma relação afetiva muito forte com a música e a cultura nordestina. Sempre que vou, volto cheio de referências, ideias e vontade de misturar ainda mais isso ao meu trabalho. Com Pimenta, quero cair na estrada e fazer shows por todo o país.

Veja o videoclipe: