João Pessoa, 16 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC
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O vento sabe muito de nós. Sabe dos passos que deixamos nas trilhas de terra batida vermelha, dos nomes nas noites sertanejas, em que a lua no espelho das poças d’água, e até dos sonhos que guardamos que quase parecem ter um peso. Viver é melhor que sonhar, como está na canção de Belchior.
No espaço do sonho entre o silêncio e a palavra, nasce a paisagem, em forma de linguagem, uma geografia feita de sentimentalidades e presenças que jamais se vão do nosso convivio . O sertão que alguns chamam com rudeza é, na verdade, um coração desvelado. Ele nos olha quando estamos distraídos e nos lembra de que tudo tem ritmo, o som do balanço das árvores, o namoro dos passarinhos, mesmo quando não parecem mais existir ou registrir,
Caminhei por manhãs em que o sol ainda hesitava em nascer. E, naquela quietude, ouvi o canto secreto das pedras que falam de tempo, não de pressa. Falam de eternidade na forma de migalhas de luz.
Cada árvore, cada pedra, cada linha do horizonte é um verso sem ponto final porque a vida não para, não se encerra, apenas muda de lugar qunado deixamos de sonhar.
O homem do lugar costuma dizer que “o silêncio tem voz”. É verdade. Ele canta no balança das folhas, das nuvens ligeiras nop verão ou no céu de chumbo, na manhã em que o canto de um pássaro é uma lembrança do que já fomos e podemos ser. O silêncio não cala, ele traduz.
E constatamos: o que nos falta não é mais o mundo, é mais atenção. É escutar o outro nas horas que correm depressa, até nos convencerem de que a pressa é virtude. Não é. A pressa é uma janela aberta demais para o vento que arrasta tudo, menos o que importa.
Importa o gesto suave de quem ama sem pedir retorno. Importa a cor do céu que a memória guarda como céu de infância. Importa o brilho fugidio de um pensamento ao cair da tarde. Importa o instante em que respiramos fundo e sentimos, por dentro, o peso benfazejo do existir não como um fardo, mas como um poema que ainda não terminou de se escrever. Um longo poema
A vida é esse delicado momento perante o mistério das coisas simples: o riso fácil, a lágrima que escorre sem aviso, a revoada de pássaros que partem antes da chuva. E ali, no coração de cada coisa, há um segredo: cada fim é só um começo disfarçado.
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
BOLETIM DA REDAÇÃO - 15/01/2026