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Clara Velloso Borges é escritora, professora de literatura e mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: [email protected]

 

Elvis e Baldwin

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publicado em 05/08/2022 às 07h00
atualizado em 04/08/2022 às 11h58

A injusta vitória de Rami Malek no Oscar de 2019, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator, tirou de grandes artistas a oportunidade de arrematar a estatueta. Malek ganhou o Oscar por sua performance como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Não é uma atuação desprezível, mas nem se compara com o magnânimo desempenho de Taron Egerton como Elton John em Rocketman, filme que mereceria todas as láureas no ano seguinte, mas parece ter sido evitado, para que a Academia não premiasse apenas atores que representassem estrelas do rock. Pergunto-me se a postura da cerimônia será mantida, diante do hipnotizante estudo de personagem que Austin Butler (foto) fez em Elvis, lançamento de Baz Luhrman.

Enquanto o filme dá ênfase à ascensão de Presley e ao conturbado relacionamento com seu empresário, Tom Parker, prefiro olhar para a influência que a cultura negra exerceu sobre o seu som. A relação de Presley com a música negra é ambígua e complexa, já que os limites entre inspiração e apropriação são tênues. O cantor sedimentou seu rock nas bases do blues e do gospel de origem afroamericana, mas obteve um alcance maior do que a maioria dos artistas que o inspirou — para essa divergência, pesam tanto a originalidade de Elvis quanto o racismo que apagava artistas negros igualmente talentosos.

No filme, o rei do rock é amigo próximo de B. B. King e frequentador assíduo da rua Beale, em Memphis, cidade extremamente preconceituosa nos Estados Unidos. O endereço é palco de icônicos shows de blues. Em um hotel não muito longe dali, o pastor e ativista político Martin Luther King Jr. foi assassinado. A rua Beale é tão marcante que empresta o endereço para um título de romance de James Baldwin, Se a rua Beale falasse. A obra acompanha um jovem casal, cuja vida é transpassada pelo racismo. Tish, a protagonista, está grávida e apaixonada. Fonny, seu namorado e pai da criança, é preso por um crime que não cometeu. Em determinado momento da narrativa, o advogado de Fonny exclama: “A verdade do caso não interessa. O que interessa é quem ganha.”

Surpreendentemente, Se a rua Beale falasse não se passa em Memphis, e sim em Nova York. A alusão ao endereço é referência ao blues, gênero que ofereceu ritmo para que muitas verdades passassem a interessar. No filme sobre Elvis Presley, quando as coisas estão difíceis demais para falar, são cantadas. A rua Beale não fala. Mas canta.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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